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GLOSSÁRIO

Sudão: os povos, a história, quem combate e porquê

Atualizado em 22 de outubro de 2026

As notícias sobre o Sudão falam de «dois generais», das RSF, do Darfur, de El Fasher, mas raramente explicam quem são os povos envolvidos, de onde nasce a guerra e quem lucra com ela. Esta ficha reúne o contexto essencial. É atualizável: cada alteração fica registada no fim, com data e fonte.

Em síntese

Terra e povos

O Nilo atravessa o Sudão de sul a norte: em Cartum encontram-se o Nilo Branco, que vem do Uganda, e o Nilo Azul, que vem da Etiópia. Ao longo do rio e na planície entre os dois Nilos, a Gezira, vive a parte mais rica e mais representada do país. À volta ficam as periferias: o deserto a norte, as colinas do mar Vermelho a leste, as savanas do Kordofan e do Darfur a oeste, os montes Nuba e o Nilo Azul a sul. Como em muitos países africanos, o centro governa e as periferias resistem.

Árabes do rioFurZaghawaBejaNubaNúbiosBaggaraMasalitPovos do Nilo AzulEgitoLíbiaChadeSudão do SulEtiópiaEritreiaMar VermelhoCartumPort SudanEl FasherNyalaEl ObeidDarfur, Kordofan e Nilo AzulOutros estados
A vermelho, as regiões periféricas onde se combate desde 2003 ou 2011: os cinco estados do Darfur, o Kordofan e o Nilo Azul. Os nomes em itálico indicam onde vivem os povos citados nesta ficha; o ponto vermelho assinala os masalit em torno de El Geneina. Não traçamos as linhas da frente, que mudam de semana para semana. O quadrado indica a capital. Fronteiras: Natural Earth.

Um aviso sobre os números. O Sudão contou as etnias num só recenseamento, o de 1956 (Human Rights Watch). O último recenseamento geral, de 2008, ainda incluía o Sul mas não perguntava a etnia; a contagem foi contestada e nunca foi repetida. Além disso, «árabe» no Sudão não é uma categoria biológica: designa quem fala árabe como primeira língua e se reconhece numa genealogia árabe. Um fur que se tornasse pastor nómada podia ser considerado baggara, ou seja, árabe (Library of Congress). Por isso os números que se seguem são de três tipos, sempre indicados:

A população total estima-se hoje em cerca de 50 milhões (The National). Todos os povos que se seguem são africanos; a distinção que conta nesta guerra é entre quem se define árabe e quem não.

Religião: segundo o governo, cerca de 91 % da população é muçulmana, quase toda sunita e com uma forte tradição sufi; os cristãos vivem sobretudo nas cidades, nos montes Nuba e no Nilo Azul; menos de 1 % segue religiões tradicionais (Departamento de Estado dos EUA, 2019).

Recursos: ouro, petróleo, terra fértil e água do Nilo, gado, a costa do mar Vermelho. O Sudão é o terceiro produtor de ouro de África (Al Jazeera). Com a independência do Sul, em 2011, perdeu cerca de três quartos da produção de petróleo (The New Humanitarian), e o ouro tornou-se a primeira exportação: em 2024 valia quase metade das exportações registadas (Steptoe).

Breve história

Antes da colonização. Ao longo do Nilo nasce um dos mais antigos reinos de África, Kush. No século VIII a.C. os seus reis conquistam o Egito e governam-no durante quase um século, como XXV dinastia dos faraós. No século VI d.C. os três reinos da Núbia tornam-se cristãos, e assim permanecem durante quase mil anos. Em 1504 nasce no Nilo Azul o sultanato muçulmano Funj, com capital em Sennar (Embaixada do Sudão nos Países Baixos); no século XVII, a oeste, os fur fundam o sultanato do Darfur (Macquarie University).

A conquista turco-egípcia (1821-1885). Em 1821 o exército de Muhammad Ali, o paxá do Egito otomano, invade o país. O objetivo declarado é tomar «o ouro e os escravos» necessários para construir o Estado egípcio (Fanack). Impostos pesados e repressão provocam revoltas contínuas (mesma fonte). Em 1874 também o Darfur é anexado (Macquarie, cit.).

O Mahdi (1881-1898). Em 1881 um pregador, Muhammad Ahmad, proclama-se Mahdi, o redentor esperado pelo islão, e lidera a revolta contra o domínio turco-egípcio. Em 1885 as suas forças tomam Cartum e matam o general britânico Gordon. O seu Estado dura treze anos: a 2 de setembro de 1898, em Omdurmã, o exército anglo-egípcio de Kitchener destrói-o (National Army Museum).

O condomínio anglo-egípcio (1899-1955). Formalmente o Sudão é governado em conjunto pelo Reino Unido e pelo Egito; na prática mandam os britânicos (Fanack). O Darfur volta a ser independente sob o sultão Ali Dinar e só é conquistado em 1916 (Macquarie, cit.). Três escolhas coloniais ainda pesam hoje:

A independência e as guerras com o Sul (1955-2005). Em agosto de 1955, cinco meses antes da independência, os soldados do Sul amotinam-se: começa a primeira guerra civil. A independência chega a 1 de janeiro de 1956. Dois anos depois, em 1958, o general Abboud toma o poder; em 1964 uma revolta popular expulsa-o; em 1969 o coronel Nimeiri faz um novo golpe de Estado. Em 1972 o acordo de Adis Abeba dá autonomia ao Sul e encerra a primeira guerra. Em 1983 Nimeiri anula-o e impõe a sharia a todo o país, com as «leis de setembro»: começa a segunda guerra civil, liderada no Sul por John Garang e pelo seu SPLA (Refworld). Durará até 2005 e fará cerca de dois milhões de mortos (CFR).

Bashir (1989-2019). A 30 de junho de 1989 o general Omar al-Bashir toma o poder com o apoio dos islamistas de Hassan al-Turabi (Refworld, cit.). Nos anos 90 o Sudão entra na lista norte-americana de Estados que apoiam o terrorismo, onde ficará 27 anos (Africanews). Em 2000 um grupo de intelectuais do Darfur divulga clandestinamente o «Livro Negro», segundo o qual as elites do Nilo detêm 95 % do poder e da riqueza do país (Al Jazeera). Em 2003 os movimentos armados do Darfur, o SLA e o JEM, revoltam-se. O governo responde armando as milícias janjawid, recrutadas entre os criadores de gado árabes: aldeias queimadas, violações, expulsões em massa de fur, zaghawa e masalit. Os Estados Unidos confirmaram a destruição de 2964 aldeias entre 2003 e 2009 (IRB Canadá). Os mortos são cerca de 300 000 (CFR). Em 2005 o Conselho de Segurança remete o Darfur para o Tribunal Penal Internacional, que em 2009 pede a detenção de Bashir e em 2010 acrescenta a acusação de genocídio contra fur, masalit e zaghawa (TPI). Também em 2005, o acordo de paz com o Sul prevê um referendo: em 2011 o Sul vota e torna-se independente. Em 2013 Bashir transforma os janjawid num corpo oficial, as Forças de Apoio Rápido, sob o comando de Hemedti e na sua dependência direta (CFR, cit.; BBC, via allAfrica).

A revolução e a transição (2018-2021). Em dezembro de 2018 começam protestos em todo o país. A 11 de abril de 2019 o exército e as RSF, juntos, depõem Bashir (HRW). A 3 de junho forças lideradas pelas RSF dispersam o protesto acampado diante do quartel-general do exército em Cartum: segundo o sindicato dos médicos, entre 3 e 18 de junho são mortas 124 pessoas (mesma fonte). Em agosto militares e civis assinam um acordo de partilha do poder; o primeiro-ministro é o economista Abdalla Hamdok, Burhan preside ao Conselho Soberano e Hemedti é o seu vice. Em dezembro de 2020 os Estados Unidos retiram o Sudão da lista de apoiantes do terrorismo, depois de o país aceitar pagar 335 milhões de dólares às vítimas dos atentados de 1998 e normalizar as relações com Israel (Africanews).

O golpe e a guerra (desde 2021). A 25 de outubro de 2021 Burhan e Hemedti, juntos, derrubam o governo civil. Em dezembro de 2022 um acordo-quadro prevê o regresso aos civis, mas não fixa uma data para a integração das RSF no exército. Neste ponto os dois generais rompem: a 15 de abril de 2023 combate-se em Cartum (CFR). O governo foge para Port Sudan. As RSF ocupam grande parte da capital e, no Darfur ocidental, El Geneina. Em março de 2025 o exército retoma Cartum; a 26 de outubro de 2025, após um cerco de dezoito meses, as RSF tomam El Fasher, a última grande cidade do Darfur ainda nas mãos do exército. Segundo a ONU, nesses dias foram mortas mais de 6000 pessoas (People Daily, segundo o TPI e a ONU).

Dois governos (2025-2026). Em julho de 2025 as RSF e os seus aliados anunciam um governo paralelo, com sede de facto em Nyala, capital do Darfur do Sul (Sudan War Monitor). A 11 de janeiro de 2026 o governo do exército regressa a Cartum após quase três anos em Port Sudan (Al Jazeera). Em 2026 o exército avança no Kordofan: em fevereiro rompe o cerco de Kadugli (Anadolu), em outubro toma al-Mazroub e aponta a En Nahud (Al Jazeera). As RSF mantêm quase todo o Darfur e atacam com drones as cidades do exército, até ao Nilo Azul.

Quem governa e como

Hoje o Sudão tem dois governos, e nenhum deles foi eleito. Desde a queda de Bashir não se voltou a votar, e não existe Parlamento (Freedom House).

Dois institutos independentes, de dois países diferentes, chegam à mesma conclusão:

A 22 de setembro de 2026 o Departamento de Estado norte-americano declarou que nem o exército nem as RSF, nem os seus líderes, representam um governo legítimo: ambos governam «apenas pela força das armas» (The National). O governo de Cartum rejeitou a declaração.

Quem é quem

QuemQuem lideraPosição
Forças Armadas Sudanesas (SAF) e Conselho Soberano, CartumGen. Abdel Fattah al-BurhanControlam o norte, o leste, o centro e Cartum. A 6 de outubro de 2026 Burhan disse que quer retomar «cada centímetro» e recusou negociações (Al Jazeera). Sancionado pelos EUA em janeiro de 2025 por bombardear escolas, mercados e hospitais (The Sentry)
Governo de CartumKamil Idris, primeiro-ministro desde maio de 2025O governo civil nomeado pelo exército, de volta à capital desde janeiro de 2026
Forças de Apoio Rápido (RSF) e governo Tasis, NyalaGen. Mohamed Hamdan Dagalo, «Hemedti»Nascidas dos janjawid. Controlam quase todo o Darfur e parte do Kordofan. Sancionado pelos EUA em janeiro de 2025, quando Washington determinou que as RSF cometeram genocídio (CBC)
SPLM-N (Movimento de Libertação do Povo do Sudão-Norte), montes NubaAbdelaziz al-HiluCombate pelos nuba desde 2011. Desde 2025 é aliado das RSF e al-Hilu é vice-presidente do governo Tasis (Sudan War Monitor)
Forças Conjuntas do DarfurMinni Minnawi (SLA) e Jibril Ibrahim (JEM), ambos zaghawaOs ex-rebeldes de 2003, hoje aliados do exército contra as RSF (Asharq Al-Awsat). Jibril Ibrahim é ministro das Finanças do governo de Cartum (The New Arab; Wikipedia)
Movimento Islâmico e brigada al-Baraa ibn MalikAli Karti, secretário-geral do Movimento IslâmicoOs islamistas da era Bashir combatem ao lado do exército. A 9 de março de 2026 os EUA designaram-nos organização terrorista (CSW)
SLM-AW (Movimento de Libertação do Sudão), Jebel MarraAbdel Wahid al-NurControla grande parte do maciço do Jebel Marra e acolhe centenas de milhares de deslocados em Tawila. Não combate com nenhuma das partes. Em setembro de 2026 a sua administração declarou a fome (Sudan Tribune)
Sumud (Aliança Civil Democrática das Forças Revolucionárias)Abdalla Hamdok, ex-primeiro-ministroA coligação civil nascida em 2025 da revolução de 2019. Recusa-se a tomar partido por um dos lados (Sudans Post)

De onde nasce o conflito

Usamos os quatro níveis do nosso artigo As guerras do mundo são «muçulmanas»?. Aqui quase todos os combatentes são muçulmanos sunitas: a religião não divide as partes.

O terreno: um centro e as suas periferias. O Sudão nasceu de uma conquista, a turco-egípcia de 1821, e as suas fronteiras são as fixadas pelo Cairo e por Londres. Durante dois séculos o centro no Nilo tirou às periferias escravos, soldados, ouro e gado, e devolveu pouco. Os britânicos reforçaram o desequilíbrio, investindo ao longo do rio e isolando o Sul. Depois da independência, as elites árabes do Nilo mantiveram esse modelo: é a acusação do «Livro Negro» de 2000. As guerras do Sul, do Darfur, dos montes Nuba e do Nilo Azul nascem todas aqui.

Isto não absolve os governos seguintes. O colonialismo deixou o desequilíbrio; armar uma parte da população contra outra foi uma escolha feita em Cartum, por Nimeiri, por Bashir e pelos generais que lhe sucederam.

A faísca: dois exércitos para um Estado. Bashir criara as RSF como um exército pessoal, separado do exército regular e fiel a ele. Depois da sua queda, os dois exércitos viram-se a dividir o poder e as riquezas do país. O acordo de dezembro de 2022 pedia que fossem unidos, mas sem data; nenhum dos dois generais queria ceder o comando. A 15 de abril de 2023 a disputa tornou-se guerra.

A bandeira: árabes e não árabes. Nenhuma das partes combate em nome da etnia. Mas no Darfur a guerra retomou as linhas da de 2003. As RSF e as milícias aliadas atacaram de forma sistemática masalit, fur e zaghawa: para a missão de inquérito da ONU, em El Fasher estas violências «não foram excessos aleatórios da guerra», mas uma operação planeada (ONU Genebra). Do outro lado, o exército alistou milícias com base tribal e islamista, e os civis das tribos árabes são acusados de estar com as RSF. Por trás da etnia está também a terra: as pastagens dos criadores e os campos dos agricultores, que a seca tornou cada vez mais escassos (HRW).

O multiplicador externo: armas, ouro e portos. Uma guerra com esta duração não se faz sem abastecimentos. A secção seguinte documenta quem abastece as duas partes, quem compra o ouro e quem quer um porto no mar Vermelho.

A quem aproveita

Documentamos interesses declarados ou verificáveis, não motivações. Se um ator desmente, dizemo-lo.

Os dois generais e o ouro. Ainda antes de comandar as RSF, Hemedti tomou o controlo de Jebel Amer, a maior mina de ouro artesanal do Darfur. A empresa da sua família, al-Junaid, tornou-se o maior exportador de ouro do país (BBC, via allAfrica); os Estados Unidos sancionaram-na em junho de 2023 (Steptoe). Em 2015 Hemedti também vendeu os seus homens à Arábia Saudita e aos Emirados para combaterem no Iémen (BBC, cit.). Mas o ouro financia também o exército: em 2024 o governo de Port Sudan exportou oficialmente ouro no valor de 1,97 mil milhões de dólares, quase metade de todas as exportações registadas, e segundo a empresa mineira estatal 80 % do ouro sai do país por contrabando (Steptoe, cit.). Em julho de 2026 a União Europeia proibiu a compra de ouro sudanês, acusando as duas partes de financiarem assim a guerra; o Reino Unido sancionou um financiador das RSF e três empresas mineiras estatais (mesma fonte).

Os Emirados Árabes Unidos. Segundo a missão de inquérito da ONU, há «motivos razoáveis» para crer que uma rede com bases nos Emirados, no Chade, na Líbia e em Puntland abasteceu as RSF de armas, drones, combustível e mercenários. Os Emirados negam qualquer envolvimento (contámo-lo em «Sudão, a guerra à distância»). Os seus interesses documentados:

O Egito é o principal apoio regional do exército: aviões, munições e informações (CFR). Quer um governo amigo a sul, no Nilo de que depende a sua água, enquanto a disputa com a Etiópia sobre a grande barragem GERD continua em aberto. Segundo investigações jornalísticas, entre as quais uma do New York Times, o Egito passou do apoio à intervenção direta, com drones lançados a partir de uma base no deserto egípcio; o Cairo nega e diz ter no Sudão apenas instrutores (Horn Review).

A Arábia Saudita declara-se neutral e acolheu as conversações de Jedá em 2023, mas apoia a legitimidade do exército (CFR). Segundo a imprensa económica africana, um contrato de 1,5 mil milhões de dólares de armas paquistanesas para o exército, pago por Riade, estava ligado a um acordo sobre o ouro sudanês com a refinaria saudita; a Reuters noticiou que foi anulado em abril de 2026 após protestos de governos ocidentais (Steptoe).

A Turquia e o Irão. O Irão forneceu ao exército drones Mohajer-6 (CFR). A missão da ONU reconheceu, em imagens de ataques do exército, drones compatíveis com modelos turcos, mas não atribuiu o seu fornecimento a nenhum Estado (relatámo-lo em «Sudão, a guerra à distância»).

A Rússia mudou de cavalo. A partir de 2017 a empresa Meroe Gold, que segundo o Tesouro norte-americano era uma fachada do grupo Wagner, extraía ouro no Sudão; o Wagner estreitou depois laços com Hemedti (Al Jazeera). Hoje Moscovo apoia o exército (CFR), e o interesse é um porto: um acordo de 2020 prevê uma base naval russa em Port Sudan durante 25 anos, com até quatro navios e 300 militares. Nunca foi ratificado e em novembro de 2025 o embaixador russo disse que estava «parado» por causa da guerra (Kyiv Post); segundo o Wall Street Journal, em dezembro o exército voltou a oferecê-lo em troca de armas (The New Arab). Em novembro de 2024 a Rússia vetou uma resolução do Conselho de Segurança que pedia o cessar-fogo (Al Jazeera).

Os vizinhos. O Chade e a Líbia oriental do general Haftar são indicados pela missão da ONU como placas giratórias dos abastecimentos às RSF; imagens de satélite e investigações jornalísticas ligam instalações militares etíopes ao abastecimento e ao treino das RSF (CFR). O Quénia acolheu em Nairobi, em fevereiro de 2025, a assinatura da carta do governo paralelo (mesma fonte).

Os Estados Unidos e a Europa. Sancionaram os líderes de ambas as partes e as suas empresas. Os Estados Unidos determinaram em janeiro de 2025 que as RSF cometeram genocídio e em maio de 2025 que o exército usou armas químicas em 2024, acusação que o governo rejeita (Justice Info). Mas os Emirados, o Egito e a Arábia Saudita, os principais apoios externos das duas partes, são também parceiros estratégicos de Washington e dos países europeus, Itália incluída. E a atenção da Europa continua muito menor do que para outras guerras, como documentámos em «Porquê a Ucrânia e não o Sudão».

Os islamistas. Afastados do poder pela revolução de 2019, voltaram à linha da frente combatendo ao lado do exército (Asharq Al-Awsat). Para os grupos civis, a sua presença é uma das razões pelas quais o exército recusa negociar; o exército responde que as milícias estão sob o seu comando.

Quem intervém de fora

O custo humano. Ninguém sabe quantos são os mortos. A ACLED, uma organização que conta apenas as mortes documentadas nos combates, registou pelo menos 59 000 (AP, via AJC). Os estudos que estimam também as mortes não registadas dão números muito mais altos: para a London School of Hygiene and Tropical Medicine, só no estado de Cartum morreram de todas as causas mais de 61 000 pessoas nos primeiros catorze meses de guerra (LSHTM); para o instituto norueguês PRIO, em 2025 os mortos podem ter chegado a 100 000 (PRIO). Os deslocados internos são 8,8 milhões (ACNUR, com dados da OIM, maio de 2026), os refugiados no estrangeiro 4,3 milhões. Em maio, 19,5 milhões de pessoas, mais de quatro em cada dez, estavam em insegurança alimentar aguda; a 19 de outubro o IPC, o sistema internacional que mede a fome, alertou que aumentam as zonas em risco de fome no Darfur e no Kordofan, também por causa da seca ligada ao El Niño (AP, via AJC).

Direito internacional

Os tratados. Segundo a base de dados sobre direito humanitário (Guide du droit humanitaire), o Sudão:

As RSF são um grupo armado, não um Estado, mas estão vinculadas ao direito humanitário tal como o exército.

**O Tribunal Penal Internacional.** O Sudão não é parte, mas em 2005 o Conselho de Segurança remeteu-lhe os crimes cometidos no Darfur (resolução 1593). Por isso o Tribunal pode julgar o Darfur mas não Cartum, o Kordofan ou o Nilo Azul. Os mandados de detenção contra Bashir, emitidos em 2009 e 2010, nunca foram executados. A 6 de outubro de 2025 chegou a primeira condenação pelo Darfur, a do ex-chefe janjawid Ali Kushayb, e a 9 de dezembro a pena: 20 anos (TPI). Sobre a guerra de hoje, a procuradoria investiga os massacres de El Geneina e El Fasher e diz ter «provas concretas» contra os líderes das RSF, mas ainda não anunciou acusações (People Daily). Os procurados sudaneses estão na nossa página Foragidos do TPI.

O genocídio. A 19 de fevereiro de 2026 a missão de inquérito da ONU concluiu que em El Fasher as RSF cometeram pelo menos três dos atos previstos na Convenção sobre o genocídio contra zaghawa e fur: assassínios, danos físicos e mentais graves, condições de vida impostas para destruir o grupo (ONU Genebra). É uma constatação de uma comissão de inquérito, não uma sentença; o mesmo vale para a determinação norte-americana de janeiro de 2025. As RSF negam mortes em grande escala. Escrevemos sobre isso no nosso manifesto pelo Sudão.

**O caso no Tribunal Internacional de Justiça.** Em março de 2025 o Sudão acusou os Emirados de cumplicidade no genocídio das RSF (CFR). A 5 de maio de 2025 o Tribunal rejeitou o caso sem o examinar quanto ao mérito: quando aderiram à Convenção, os Emirados excluíram a competência do Tribunal nos litígios que lhes digam respeito (reserva ao artigo IX) (The East African). A decisão nada diz sobre se as acusações são fundadas.

As responsabilidades dos outros. O direito internacional não diz respeito apenas aos dois generais:

Cronologia

AnoFacto
Séculos XVI-XVIISultanato Funj no Nilo Azul; sultanato fur no Darfur
1821Conquista turco-egípcia
1881-1885Revolta do Mahdi; tomada de Cartum
1898Batalha de Omdurmã; começa o condomínio anglo-egípcio (1899)
1916Os britânicos conquistam o Darfur
1922 · 1930Distritos fechados e «política do Sul»
1955Motim no Sul, primeira guerra civil
1956Independência (1 de janeiro)
1958 · 1969Golpes de Estado de Abboud e de Nimeiri
1972Acordo de Adis Abeba, autonomia para o Sul
1983Leis de setembro (sharia), segunda guerra civil
1989Golpe de Estado de Bashir e dos islamistas
2003Guerra do Darfur; nascem os janjawid
2005Acordo de paz com o Sul; o Darfur remetido ao TPI
2009-2010Mandados de detenção do TPI contra Bashir
2011O Sudão do Sul torna-se independente
2013Nascem as RSF
2019Queda de Bashir (11 de abril); massacre do protesto acampado (3 de junho); governo de transição
2020O Sudão sai da lista norte-americana de apoiantes do terrorismo
2021Golpe de Estado de Burhan e Hemedti (25 de outubro)
2023Começa a guerra entre o exército e as RSF (15 de abril); massacres de El Geneina
2024Veto russo no Conselho de Segurança (novembro)
2025Genocídio segundo os EUA (janeiro); o exército retoma Cartum (março); o TIJ rejeita o caso contra os Emirados (maio); governo paralelo das RSF (julho); roteiro do Quarteto (setembro); queda de El Fasher (26 de outubro); condenação de Kushayb
2026O governo regressa a Cartum (janeiro); a ONU encontra as marcas do genocídio em El Fasher (fevereiro); a UE proíbe o ouro sudanês (julho); ofensiva do exército no Kordofan (outubro)

Registo de alterações

Fontes: Human Rights Watch · Library of Congress · Gabinete Central de Estatística · The National · Freedom House · EUAA · Al Jazeera · IRB Canadá · Justice Info · Minority Rights Group · Minority Rights Group · Departamento de Estado dos EUA, 2019 · Al Jazeera · The New Humanitarian · Steptoe · Embaixada do Sudão nos Países Baixos · Macquarie University · Fanack · National Army Museum · Fanack · Library of Congress · Refworld · CFR · Africanews · TPI · BBC, via allAfrica · HRW · People Daily, segundo o TPI e a ONU · Sudan War Monitor · Al Jazeera · Anadolu · Al Jazeera · V-Dem · Al Jazeera · The Sentry · CBC · Asharq Al-Awsat · The New Arab · Wikipedia · CSW · Sudan Tribune · Sudans Post · ONU Genebra · HRW · Swissaid · Horn Review · Kyiv Post · The New Arab · Al Jazeera · Justice Info · Sudan Tribune · Sudan Tribune · allAfrica · ONU · ONU Genebra, segundo o ACNUR · AP, via AJC · LSHTM · PRIO · ACNUR, com dados da OIM, maio de 2026 · Guide du droit humanitaire · TPI · The East African · Opinio Juris

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