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GLOSSÁRIO
Sudão: os povos, a história, quem combate e porquê
Atualizado em 22 de outubro de 2026
As notícias sobre o Sudão falam de «dois generais», das RSF, do Darfur, de El Fasher, mas raramente explicam quem são os povos envolvidos, de onde nasce a guerra e quem lucra com ela. Esta ficha reúne o contexto essencial. É atualizável: cada alteração fica registada no fim, com data e fonte.
Em síntese
- O Sudão tem cerca de 50 milhões de habitantes, na maioria muçulmanos sunitas. Ao lado dos árabes sudaneses, o grupo mais numeroso, vivem muitos povos não árabes: fur, zaghawa e masalit no Darfur, beja no leste, nuba no centro-sul, núbios no norte.
- Desde a independência (1956) o país foi governado quase sempre por militares ou por regimes apoiados pelo exército. As guerras contra as periferias – o Sul, o Darfur, os montes Nuba e o Nilo Azul – começaram antes da independência. O Sul saiu em 2011.
- Desde 15 de abril de 2023 combatem o exército regular (SAF) do general al-Burhan e as Forças de Apoio Rápido (RSF) do general Dagalo, conhecido como Hemedti. Até 2021 tinham governado juntos. Hoje há dois governos rivais: um em Cartum, o outro em Nyala, no Darfur.
- É a maior crise de deslocação do mundo: cerca de 8,8 milhões de deslocados internos e 4,3 milhões de refugiados no estrangeiro, e 19,5 milhões de pessoas em insegurança alimentar aguda.
- Uma missão de inquérito da ONU concluiu que o ataque das RSF a El Fasher, em outubro de 2025, tem as «marcas distintivas do genocídio». Ambas as partes são acusadas de crimes de guerra. Por trás delas há Estados estrangeiros e, por baixo, o ouro.
Terra e povos
O Nilo atravessa o Sudão de sul a norte: em Cartum encontram-se o Nilo Branco, que vem do Uganda, e o Nilo Azul, que vem da Etiópia. Ao longo do rio e na planície entre os dois Nilos, a Gezira, vive a parte mais rica e mais representada do país. À volta ficam as periferias: o deserto a norte, as colinas do mar Vermelho a leste, as savanas do Kordofan e do Darfur a oeste, os montes Nuba e o Nilo Azul a sul. Como em muitos países africanos, o centro governa e as periferias resistem.
Um aviso sobre os números. O Sudão contou as etnias num só recenseamento, o de 1956 (Human Rights Watch). O último recenseamento geral, de 2008, ainda incluía o Sul mas não perguntava a etnia; a contagem foi contestada e nunca foi repetida. Além disso, «árabe» no Sudão não é uma categoria biológica: designa quem fala árabe como primeira língua e se reconhece numa genealogia árabe. Um fur que se tornasse pastor nómada podia ser considerado baggara, ou seja, árabe (Library of Congress). Por isso os números que se seguem são de três tipos, sempre indicados:
- recenseamento de 1956: as proporções da época, que no entanto incluíam também o Sul, hoje Sudão do Sul;
- recenseamento de 2008: os habitantes dos estados onde vive um povo, que não coincidem com o povo (Gabinete Central de Estatística);
- estimativa: avaliações de organizações independentes, como a Minority Rights Group.
A população total estima-se hoje em cerca de 50 milhões (The National). Todos os povos que se seguem são africanos; a distinção que conta nesta guerra é entre quem se define árabe e quem não.
- Árabes sudaneses — o grupo mais numeroso. Em 1956 eram 39 % de todo o Sudão, Sul incluído (recenseamento de 1956); em 1983 eram quase 55 % das províncias do Norte (Library of Congress). Não são um bloco único. As tribos do rio, como os ja'aliyin, vivem ao longo do Nilo a norte de Cartum: é o mundo de onde vem grande parte da elite que governa desde a independência, porque o sistema político sempre favoreceu os grupos árabes e muçulmanos em torno da capital (Freedom House). Os baggara («os das vacas») e os abbala («os dos camelos») são criadores de gado do Kordofan e do Darfur: entre eles os rizeigat, a tribo de Hemedti, e os misseriya. Foi entre estes criadores que o governo recrutou, nos anos 2000, as milícias janjawid.
- Fur — o povo mais numeroso do Darfur, que tem o seu nome: «Dar Fur» significa «terra dos fur». Nenhuma estimativa fiável. São agricultores sedentários em torno do maciço do Jebel Marra, muçulmanos mas não arabizados, e até 1916 tiveram um sultanato independente (Library of Congress). Nos cinco estados do Darfur viviam em 2008 cerca de 7,5 milhões de pessoas (recenseamento de 2008) e, segundo a agência de asilo da UE, os grupos não árabes são entre dois terços e três quartos da população da região (EUAA).
- Zaghawa — nenhuma estimativa fiável. Criadores de gado seminómadas do norte do Darfur, vivem dos dois lados da fronteira com o Chade, onde muitos ocupam cargos importantes no exército (Library of Congress; Al Jazeera). São zaghawa os líderes de dois dos principais movimentos armados do Darfur, hoje aliados do exército (ver «Quem é quem»).
- Masalit — cerca de 350 000 falantes segundo o Ethnologue (2011), citado pela comissão canadiana para os refugiados (IRB Canadá). Agricultores do Darfur ocidental, em torno de El Geneina. Em 2023 estiveram entre os primeiros alvos das RSF: segundo um grupo de peritos da ONU, em El Geneina foram mortas entre 10 000 e 15 000 pessoas (Justice Info).
- Beja — cerca de 2 a 3 milhões (estimativa, Minority Rights Group). Vivem no leste, entre as colinas do mar Vermelho, Port Sudan e Kassala, e viviam lá antes da chegada dos árabes. Falam uma língua própria, o bedawiye, e são muçulmanos sufis. Estão entre os mais pobres do país (mesma fonte), embora Port Sudan, a principal saída para o mar, fique na sua terra.
- Nuba — cerca de 3,7 milhões (estimativa, Minority Rights Group, 2018); em 1956 eram 6 % (recenseamento de 1956). Não são um só povo, mas mais de cinquenta comunidades diferentes que habitam os montes Nuba, no Kordofan do Sul, e falam línguas diferentes. São muçulmanos, cristãos ou de religião tradicional. Em 1992 o governador do Kordofan declarou a jihad contra eles (mesma fonte). O seu movimento armado, o SPLM-N, controla parte dos montes.
- Núbios — em 1956 eram 3 % (recenseamento de 1956). Vivem ao longo do Nilo no extremo norte e no sul do Egito, e descendem das antigas civilizações núbias. Nos anos 60 a barragem egípcia de Assuão submergiu as suas terras: entre 35 000 e 50 000 foram transferidos para Khashm al-Qirbah, no leste (Library of Congress).
- Povos de origem da África Ocidental (chamados «fallata» no Sudão) — em 1990 eram quase um milhão, cerca de 6,5 % da população, quase 60 % de origem nigeriana (mesma fonte). São sobretudo hauçás e fulas, chegados em épocas diferentes.
- Povos do Nilo Azul — nenhuma estimativa fiável. No estado do Nilo Azul, na fronteira com a Etiópia e o Sudão do Sul, viviam em 2008 832 112 pessoas (recenseamento de 2008). É uma região de muitos povos pequenos, alguns cristãos ou de religião tradicional, onde o SPLM-N combate desde 2011.
Religião: segundo o governo, cerca de 91 % da população é muçulmana, quase toda sunita e com uma forte tradição sufi; os cristãos vivem sobretudo nas cidades, nos montes Nuba e no Nilo Azul; menos de 1 % segue religiões tradicionais (Departamento de Estado dos EUA, 2019).
Recursos: ouro, petróleo, terra fértil e água do Nilo, gado, a costa do mar Vermelho. O Sudão é o terceiro produtor de ouro de África (Al Jazeera). Com a independência do Sul, em 2011, perdeu cerca de três quartos da produção de petróleo (The New Humanitarian), e o ouro tornou-se a primeira exportação: em 2024 valia quase metade das exportações registadas (Steptoe).
Breve história
Antes da colonização. Ao longo do Nilo nasce um dos mais antigos reinos de África, Kush. No século VIII a.C. os seus reis conquistam o Egito e governam-no durante quase um século, como XXV dinastia dos faraós. No século VI d.C. os três reinos da Núbia tornam-se cristãos, e assim permanecem durante quase mil anos. Em 1504 nasce no Nilo Azul o sultanato muçulmano Funj, com capital em Sennar (Embaixada do Sudão nos Países Baixos); no século XVII, a oeste, os fur fundam o sultanato do Darfur (Macquarie University).
A conquista turco-egípcia (1821-1885). Em 1821 o exército de Muhammad Ali, o paxá do Egito otomano, invade o país. O objetivo declarado é tomar «o ouro e os escravos» necessários para construir o Estado egípcio (Fanack). Impostos pesados e repressão provocam revoltas contínuas (mesma fonte). Em 1874 também o Darfur é anexado (Macquarie, cit.).
O Mahdi (1881-1898). Em 1881 um pregador, Muhammad Ahmad, proclama-se Mahdi, o redentor esperado pelo islão, e lidera a revolta contra o domínio turco-egípcio. Em 1885 as suas forças tomam Cartum e matam o general britânico Gordon. O seu Estado dura treze anos: a 2 de setembro de 1898, em Omdurmã, o exército anglo-egípcio de Kitchener destrói-o (National Army Museum).
O condomínio anglo-egípcio (1899-1955). Formalmente o Sudão é governado em conjunto pelo Reino Unido e pelo Egito; na prática mandam os britânicos (Fanack). O Darfur volta a ser independente sob o sultão Ali Dinar e só é conquistado em 1916 (Macquarie, cit.). Três escolhas coloniais ainda pesam hoje:
- Um centro desenvolvido, periferias esquecidas. Os britânicos investem ao longo do Nilo: Port Sudan em 1906, o grande projeto de algodão da Gezira a partir de 1911, a barragem de Sennar em 1925 (Fanack, cit.). O Darfur, o Kordofan, o leste e o Sul ficam quase sem escolas nem estradas.
- Dois Sudões. A partir de 1922, as «portarias dos distritos fechados» proíbem os sudaneses do Norte de entrar e comerciar no Sul (Fanack, cit.); a partir de 1930, a «política do Sul» prepara o Sul para um futuro separado, com missionários cristãos no lugar da administração árabe (Library of Congress).
- O poder para quem está no rio. Com a independência, o poder fica com os grupos árabes e muçulmanos da zona de Cartum, que o sistema político sempre favoreceu à custa do Darfur, do Kordofan do Sul e do Nilo Azul (Freedom House).
A independência e as guerras com o Sul (1955-2005). Em agosto de 1955, cinco meses antes da independência, os soldados do Sul amotinam-se: começa a primeira guerra civil. A independência chega a 1 de janeiro de 1956. Dois anos depois, em 1958, o general Abboud toma o poder; em 1964 uma revolta popular expulsa-o; em 1969 o coronel Nimeiri faz um novo golpe de Estado. Em 1972 o acordo de Adis Abeba dá autonomia ao Sul e encerra a primeira guerra. Em 1983 Nimeiri anula-o e impõe a sharia a todo o país, com as «leis de setembro»: começa a segunda guerra civil, liderada no Sul por John Garang e pelo seu SPLA (Refworld). Durará até 2005 e fará cerca de dois milhões de mortos (CFR).
Bashir (1989-2019). A 30 de junho de 1989 o general Omar al-Bashir toma o poder com o apoio dos islamistas de Hassan al-Turabi (Refworld, cit.). Nos anos 90 o Sudão entra na lista norte-americana de Estados que apoiam o terrorismo, onde ficará 27 anos (Africanews). Em 2000 um grupo de intelectuais do Darfur divulga clandestinamente o «Livro Negro», segundo o qual as elites do Nilo detêm 95 % do poder e da riqueza do país (Al Jazeera). Em 2003 os movimentos armados do Darfur, o SLA e o JEM, revoltam-se. O governo responde armando as milícias janjawid, recrutadas entre os criadores de gado árabes: aldeias queimadas, violações, expulsões em massa de fur, zaghawa e masalit. Os Estados Unidos confirmaram a destruição de 2964 aldeias entre 2003 e 2009 (IRB Canadá). Os mortos são cerca de 300 000 (CFR). Em 2005 o Conselho de Segurança remete o Darfur para o Tribunal Penal Internacional, que em 2009 pede a detenção de Bashir e em 2010 acrescenta a acusação de genocídio contra fur, masalit e zaghawa (TPI). Também em 2005, o acordo de paz com o Sul prevê um referendo: em 2011 o Sul vota e torna-se independente. Em 2013 Bashir transforma os janjawid num corpo oficial, as Forças de Apoio Rápido, sob o comando de Hemedti e na sua dependência direta (CFR, cit.; BBC, via allAfrica).
A revolução e a transição (2018-2021). Em dezembro de 2018 começam protestos em todo o país. A 11 de abril de 2019 o exército e as RSF, juntos, depõem Bashir (HRW). A 3 de junho forças lideradas pelas RSF dispersam o protesto acampado diante do quartel-general do exército em Cartum: segundo o sindicato dos médicos, entre 3 e 18 de junho são mortas 124 pessoas (mesma fonte). Em agosto militares e civis assinam um acordo de partilha do poder; o primeiro-ministro é o economista Abdalla Hamdok, Burhan preside ao Conselho Soberano e Hemedti é o seu vice. Em dezembro de 2020 os Estados Unidos retiram o Sudão da lista de apoiantes do terrorismo, depois de o país aceitar pagar 335 milhões de dólares às vítimas dos atentados de 1998 e normalizar as relações com Israel (Africanews).
O golpe e a guerra (desde 2021). A 25 de outubro de 2021 Burhan e Hemedti, juntos, derrubam o governo civil. Em dezembro de 2022 um acordo-quadro prevê o regresso aos civis, mas não fixa uma data para a integração das RSF no exército. Neste ponto os dois generais rompem: a 15 de abril de 2023 combate-se em Cartum (CFR). O governo foge para Port Sudan. As RSF ocupam grande parte da capital e, no Darfur ocidental, El Geneina. Em março de 2025 o exército retoma Cartum; a 26 de outubro de 2025, após um cerco de dezoito meses, as RSF tomam El Fasher, a última grande cidade do Darfur ainda nas mãos do exército. Segundo a ONU, nesses dias foram mortas mais de 6000 pessoas (People Daily, segundo o TPI e a ONU).
Dois governos (2025-2026). Em julho de 2025 as RSF e os seus aliados anunciam um governo paralelo, com sede de facto em Nyala, capital do Darfur do Sul (Sudan War Monitor). A 11 de janeiro de 2026 o governo do exército regressa a Cartum após quase três anos em Port Sudan (Al Jazeera). Em 2026 o exército avança no Kordofan: em fevereiro rompe o cerco de Kadugli (Anadolu), em outubro toma al-Mazroub e aponta a En Nahud (Al Jazeera). As RSF mantêm quase todo o Darfur e atacam com drones as cidades do exército, até ao Nilo Azul.
Quem governa e como
Hoje o Sudão tem dois governos, e nenhum deles foi eleito. Desde a queda de Bashir não se voltou a votar, e não existe Parlamento (Freedom House).
- O governo do exército, com sede em Cartum, é o que ocupa o lugar do Sudão na ONU (The National). No topo está o Conselho Soberano presidido por Burhan; desde maio de 2025 o primeiro-ministro é o jurista Kamil Idris (mesma fonte).
- O governo das RSF, chamado «de paz e unidade», nasce da aliança Tasis («fundação») e é dirigido por um conselho presidencial de quinze membros presidido por Hemedti; o primeiro-ministro é Mohamed Hassan al-Ta'aishi (Sudan War Monitor).
Dois institutos independentes, de dois países diferentes, chegam à mesma conclusão:
- Freedom House (Estados Unidos), relatório de 2026: 1 ponto em 100, «não livre». Perdeu um ponto em relação ao ano anterior por causa das mortes e expulsões de carácter étnico (Freedom House).
- V-Dem (Suécia), relatório de 2026: «autocracia fechada», a categoria dos regimes em que não se vota em quem governa (V-Dem). O que distingue uma autocracia de uma democracia explicamo-lo na entrada Autocracia.
A 22 de setembro de 2026 o Departamento de Estado norte-americano declarou que nem o exército nem as RSF, nem os seus líderes, representam um governo legítimo: ambos governam «apenas pela força das armas» (The National). O governo de Cartum rejeitou a declaração.
Quem é quem
| Quem | Quem lidera | Posição |
|---|---|---|
| Forças Armadas Sudanesas (SAF) e Conselho Soberano, Cartum | Gen. Abdel Fattah al-Burhan | Controlam o norte, o leste, o centro e Cartum. A 6 de outubro de 2026 Burhan disse que quer retomar «cada centímetro» e recusou negociações (Al Jazeera). Sancionado pelos EUA em janeiro de 2025 por bombardear escolas, mercados e hospitais (The Sentry) |
| Governo de Cartum | Kamil Idris, primeiro-ministro desde maio de 2025 | O governo civil nomeado pelo exército, de volta à capital desde janeiro de 2026 |
| Forças de Apoio Rápido (RSF) e governo Tasis, Nyala | Gen. Mohamed Hamdan Dagalo, «Hemedti» | Nascidas dos janjawid. Controlam quase todo o Darfur e parte do Kordofan. Sancionado pelos EUA em janeiro de 2025, quando Washington determinou que as RSF cometeram genocídio (CBC) |
| SPLM-N (Movimento de Libertação do Povo do Sudão-Norte), montes Nuba | Abdelaziz al-Hilu | Combate pelos nuba desde 2011. Desde 2025 é aliado das RSF e al-Hilu é vice-presidente do governo Tasis (Sudan War Monitor) |
| Forças Conjuntas do Darfur | Minni Minnawi (SLA) e Jibril Ibrahim (JEM), ambos zaghawa | Os ex-rebeldes de 2003, hoje aliados do exército contra as RSF (Asharq Al-Awsat). Jibril Ibrahim é ministro das Finanças do governo de Cartum (The New Arab; Wikipedia) |
| Movimento Islâmico e brigada al-Baraa ibn Malik | Ali Karti, secretário-geral do Movimento Islâmico | Os islamistas da era Bashir combatem ao lado do exército. A 9 de março de 2026 os EUA designaram-nos organização terrorista (CSW) |
| SLM-AW (Movimento de Libertação do Sudão), Jebel Marra | Abdel Wahid al-Nur | Controla grande parte do maciço do Jebel Marra e acolhe centenas de milhares de deslocados em Tawila. Não combate com nenhuma das partes. Em setembro de 2026 a sua administração declarou a fome (Sudan Tribune) |
| Sumud (Aliança Civil Democrática das Forças Revolucionárias) | Abdalla Hamdok, ex-primeiro-ministro | A coligação civil nascida em 2025 da revolução de 2019. Recusa-se a tomar partido por um dos lados (Sudans Post) |
De onde nasce o conflito
Usamos os quatro níveis do nosso artigo As guerras do mundo são «muçulmanas»?. Aqui quase todos os combatentes são muçulmanos sunitas: a religião não divide as partes.
O terreno: um centro e as suas periferias. O Sudão nasceu de uma conquista, a turco-egípcia de 1821, e as suas fronteiras são as fixadas pelo Cairo e por Londres. Durante dois séculos o centro no Nilo tirou às periferias escravos, soldados, ouro e gado, e devolveu pouco. Os britânicos reforçaram o desequilíbrio, investindo ao longo do rio e isolando o Sul. Depois da independência, as elites árabes do Nilo mantiveram esse modelo: é a acusação do «Livro Negro» de 2000. As guerras do Sul, do Darfur, dos montes Nuba e do Nilo Azul nascem todas aqui.
Isto não absolve os governos seguintes. O colonialismo deixou o desequilíbrio; armar uma parte da população contra outra foi uma escolha feita em Cartum, por Nimeiri, por Bashir e pelos generais que lhe sucederam.
A faísca: dois exércitos para um Estado. Bashir criara as RSF como um exército pessoal, separado do exército regular e fiel a ele. Depois da sua queda, os dois exércitos viram-se a dividir o poder e as riquezas do país. O acordo de dezembro de 2022 pedia que fossem unidos, mas sem data; nenhum dos dois generais queria ceder o comando. A 15 de abril de 2023 a disputa tornou-se guerra.
A bandeira: árabes e não árabes. Nenhuma das partes combate em nome da etnia. Mas no Darfur a guerra retomou as linhas da de 2003. As RSF e as milícias aliadas atacaram de forma sistemática masalit, fur e zaghawa: para a missão de inquérito da ONU, em El Fasher estas violências «não foram excessos aleatórios da guerra», mas uma operação planeada (ONU Genebra). Do outro lado, o exército alistou milícias com base tribal e islamista, e os civis das tribos árabes são acusados de estar com as RSF. Por trás da etnia está também a terra: as pastagens dos criadores e os campos dos agricultores, que a seca tornou cada vez mais escassos (HRW).
O multiplicador externo: armas, ouro e portos. Uma guerra com esta duração não se faz sem abastecimentos. A secção seguinte documenta quem abastece as duas partes, quem compra o ouro e quem quer um porto no mar Vermelho.
A quem aproveita
Documentamos interesses declarados ou verificáveis, não motivações. Se um ator desmente, dizemo-lo.
Os dois generais e o ouro. Ainda antes de comandar as RSF, Hemedti tomou o controlo de Jebel Amer, a maior mina de ouro artesanal do Darfur. A empresa da sua família, al-Junaid, tornou-se o maior exportador de ouro do país (BBC, via allAfrica); os Estados Unidos sancionaram-na em junho de 2023 (Steptoe). Em 2015 Hemedti também vendeu os seus homens à Arábia Saudita e aos Emirados para combaterem no Iémen (BBC, cit.). Mas o ouro financia também o exército: em 2024 o governo de Port Sudan exportou oficialmente ouro no valor de 1,97 mil milhões de dólares, quase metade de todas as exportações registadas, e segundo a empresa mineira estatal 80 % do ouro sai do país por contrabando (Steptoe, cit.). Em julho de 2026 a União Europeia proibiu a compra de ouro sudanês, acusando as duas partes de financiarem assim a guerra; o Reino Unido sancionou um financiador das RSF e três empresas mineiras estatais (mesma fonte).
Os Emirados Árabes Unidos. Segundo a missão de inquérito da ONU, há «motivos razoáveis» para crer que uma rede com bases nos Emirados, no Chade, na Líbia e em Puntland abasteceu as RSF de armas, drones, combustível e mercenários. Os Emirados negam qualquer envolvimento (contámo-lo em «Sudão, a guerra à distância»). Os seus interesses documentados:
- o ouro: em 2024 os Emirados importaram diretamente do Sudão 29 toneladas de ouro, contra 17 em 2023, segundo dados da ONU compilados pela ONG Swissaid (Swissaid). Os Emirados compram o ouro exportado pelo governo do exército, e os Estados Unidos, o Reino Unido e a UE sancionaram comerciantes com sede nos Emirados por comprarem ouro de minas das RSF (Steptoe). As autoridades emiradenses disseram que essas empresas operavam sem licença ativa (mesma fonte);
- o mar Vermelho: em 2022 duas empresas emiradenses tinham assinado um projeto de 6 mil milhões de dólares para um porto e uma zona agrícola em Abu Amama, a norte de Port Sudan. Em novembro de 2024 o governo do exército cancelou-o, acusando os Emirados de apoiar as RSF (The New Arab).
O Egito é o principal apoio regional do exército: aviões, munições e informações (CFR). Quer um governo amigo a sul, no Nilo de que depende a sua água, enquanto a disputa com a Etiópia sobre a grande barragem GERD continua em aberto. Segundo investigações jornalísticas, entre as quais uma do New York Times, o Egito passou do apoio à intervenção direta, com drones lançados a partir de uma base no deserto egípcio; o Cairo nega e diz ter no Sudão apenas instrutores (Horn Review).
A Arábia Saudita declara-se neutral e acolheu as conversações de Jedá em 2023, mas apoia a legitimidade do exército (CFR). Segundo a imprensa económica africana, um contrato de 1,5 mil milhões de dólares de armas paquistanesas para o exército, pago por Riade, estava ligado a um acordo sobre o ouro sudanês com a refinaria saudita; a Reuters noticiou que foi anulado em abril de 2026 após protestos de governos ocidentais (Steptoe).
A Turquia e o Irão. O Irão forneceu ao exército drones Mohajer-6 (CFR). A missão da ONU reconheceu, em imagens de ataques do exército, drones compatíveis com modelos turcos, mas não atribuiu o seu fornecimento a nenhum Estado (relatámo-lo em «Sudão, a guerra à distância»).
A Rússia mudou de cavalo. A partir de 2017 a empresa Meroe Gold, que segundo o Tesouro norte-americano era uma fachada do grupo Wagner, extraía ouro no Sudão; o Wagner estreitou depois laços com Hemedti (Al Jazeera). Hoje Moscovo apoia o exército (CFR), e o interesse é um porto: um acordo de 2020 prevê uma base naval russa em Port Sudan durante 25 anos, com até quatro navios e 300 militares. Nunca foi ratificado e em novembro de 2025 o embaixador russo disse que estava «parado» por causa da guerra (Kyiv Post); segundo o Wall Street Journal, em dezembro o exército voltou a oferecê-lo em troca de armas (The New Arab). Em novembro de 2024 a Rússia vetou uma resolução do Conselho de Segurança que pedia o cessar-fogo (Al Jazeera).
Os vizinhos. O Chade e a Líbia oriental do general Haftar são indicados pela missão da ONU como placas giratórias dos abastecimentos às RSF; imagens de satélite e investigações jornalísticas ligam instalações militares etíopes ao abastecimento e ao treino das RSF (CFR). O Quénia acolheu em Nairobi, em fevereiro de 2025, a assinatura da carta do governo paralelo (mesma fonte).
Os Estados Unidos e a Europa. Sancionaram os líderes de ambas as partes e as suas empresas. Os Estados Unidos determinaram em janeiro de 2025 que as RSF cometeram genocídio e em maio de 2025 que o exército usou armas químicas em 2024, acusação que o governo rejeita (Justice Info). Mas os Emirados, o Egito e a Arábia Saudita, os principais apoios externos das duas partes, são também parceiros estratégicos de Washington e dos países europeus, Itália incluída. E a atenção da Europa continua muito menor do que para outras guerras, como documentámos em «Porquê a Ucrânia e não o Sudão».
Os islamistas. Afastados do poder pela revolução de 2019, voltaram à linha da frente combatendo ao lado do exército (Asharq Al-Awsat). Para os grupos civis, a sua presença é uma das razões pelas quais o exército recusa negociar; o exército responde que as milícias estão sob o seu comando.
Quem intervém de fora
- O «Quarteto» (Estados Unidos, Arábia Saudita, Egito, Emirados). A 12 de setembro de 2025 aprovou um roteiro: uma trégua humanitária de três meses, depois um cessar-fogo permanente e uma transição para um governo civil (Sudan Tribune). A 22 de outubro de 2026 a trégua nunca entrou em vigor. Segundo a Reuters, os Estados Unidos recusaram o visto a Burhan para a Assembleia Geral da ONU depois de ele ter rejeitado uma trégua de 90 dias (Sudan Tribune).
- A ONU. Desde 2004 o Conselho de Segurança proíbe o fornecimento de armas ao Darfur (resoluções 1556 e 1591). A 12 de setembro de 2026 renovou o embargo mas manteve-o limitado ao Darfur, enquanto os Estados Unidos e a missão da ONU pediam que fosse alargado a todo o país (allAfrica). O enviado pessoal do secretário-geral é o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros finlandês Pekka Haavisto, nomeado em fevereiro de 2026 (ONU). A 5 de outubro de 2026 o Conselho dos Direitos Humanos renovou por um ano a missão de inquérito; o governo sudanês rejeita-a e não concede vistos aos seus membros (allAfrica, cit.).
- Os países de acolhimento. Dos 4,3 milhões de refugiados sudaneses na região, cerca de 1,4 milhões estão no Egito; os outros sobretudo no Chade e no Sudão do Sul (ONU Genebra, segundo o ACNUR).
O custo humano. Ninguém sabe quantos são os mortos. A ACLED, uma organização que conta apenas as mortes documentadas nos combates, registou pelo menos 59 000 (AP, via AJC). Os estudos que estimam também as mortes não registadas dão números muito mais altos: para a London School of Hygiene and Tropical Medicine, só no estado de Cartum morreram de todas as causas mais de 61 000 pessoas nos primeiros catorze meses de guerra (LSHTM); para o instituto norueguês PRIO, em 2025 os mortos podem ter chegado a 100 000 (PRIO). Os deslocados internos são 8,8 milhões (ACNUR, com dados da OIM, maio de 2026), os refugiados no estrangeiro 4,3 milhões. Em maio, 19,5 milhões de pessoas, mais de quatro em cada dez, estavam em insegurança alimentar aguda; a 19 de outubro o IPC, o sistema internacional que mede a fome, alertou que aumentam as zonas em risco de fome no Darfur e no Kordofan, também por causa da seca ligada ao El Niño (AP, via AJC).
Direito internacional
Os tratados. Segundo a base de dados sobre direito humanitário (Guide du droit humanitaire), o Sudão:
- é parte da Convenção sobre o genocídio desde 2003;
- é parte das Convenções de Genebra desde 1957 e dos dois Protocolos adicionais desde 2006: o segundo protege os civis nas guerras internas como esta;
- é parte da Convenção sobre as armas químicas desde 1999 e da Convenção contra a tortura desde 2021;
- assinou o Estatuto de Roma em 2000 mas não o ratificou.
As RSF são um grupo armado, não um Estado, mas estão vinculadas ao direito humanitário tal como o exército.
**O Tribunal Penal Internacional.** O Sudão não é parte, mas em 2005 o Conselho de Segurança remeteu-lhe os crimes cometidos no Darfur (resolução 1593). Por isso o Tribunal pode julgar o Darfur mas não Cartum, o Kordofan ou o Nilo Azul. Os mandados de detenção contra Bashir, emitidos em 2009 e 2010, nunca foram executados. A 6 de outubro de 2025 chegou a primeira condenação pelo Darfur, a do ex-chefe janjawid Ali Kushayb, e a 9 de dezembro a pena: 20 anos (TPI). Sobre a guerra de hoje, a procuradoria investiga os massacres de El Geneina e El Fasher e diz ter «provas concretas» contra os líderes das RSF, mas ainda não anunciou acusações (People Daily). Os procurados sudaneses estão na nossa página Foragidos do TPI.
O genocídio. A 19 de fevereiro de 2026 a missão de inquérito da ONU concluiu que em El Fasher as RSF cometeram pelo menos três dos atos previstos na Convenção sobre o genocídio contra zaghawa e fur: assassínios, danos físicos e mentais graves, condições de vida impostas para destruir o grupo (ONU Genebra). É uma constatação de uma comissão de inquérito, não uma sentença; o mesmo vale para a determinação norte-americana de janeiro de 2025. As RSF negam mortes em grande escala. Escrevemos sobre isso no nosso manifesto pelo Sudão.
**O caso no Tribunal Internacional de Justiça.** Em março de 2025 o Sudão acusou os Emirados de cumplicidade no genocídio das RSF (CFR). A 5 de maio de 2025 o Tribunal rejeitou o caso sem o examinar quanto ao mérito: quando aderiram à Convenção, os Emirados excluíram a competência do Tribunal nos litígios que lhes digam respeito (reserva ao artigo IX) (The East African). A decisão nada diz sobre se as acusações são fundadas.
As responsabilidades dos outros. O direito internacional não diz respeito apenas aos dois generais:
- o artigo 1.º comum às Convenções de Genebra obriga todos os Estados a fazer respeitar o direito humanitário, e um Estado que ajuda conscientemente outro a violá-lo responde por isso. Explicámo-lo em «Sudão, a guerra à distância»;
- o embargo da ONU sobre o Darfur vincula todos os Estados-membros; quem fornece armas às RSF no Darfur viola-o;
- a Convenção sobre o genocídio obriga os Estados a preveni-lo, não só a puni-lo. Em 2007, no acórdão Bósnia contra Sérvia, o Tribunal Internacional de Justiça estabeleceu que cada Estado deve usar «todos os meios razoavelmente ao seu dispor», tanto mais quanto maior for a sua capacidade de influenciar quem o comete (Opinio Juris).
Cronologia
| Ano | Facto |
|---|---|
| Séculos XVI-XVII | Sultanato Funj no Nilo Azul; sultanato fur no Darfur |
| 1821 | Conquista turco-egípcia |
| 1881-1885 | Revolta do Mahdi; tomada de Cartum |
| 1898 | Batalha de Omdurmã; começa o condomínio anglo-egípcio (1899) |
| 1916 | Os britânicos conquistam o Darfur |
| 1922 · 1930 | Distritos fechados e «política do Sul» |
| 1955 | Motim no Sul, primeira guerra civil |
| 1956 | Independência (1 de janeiro) |
| 1958 · 1969 | Golpes de Estado de Abboud e de Nimeiri |
| 1972 | Acordo de Adis Abeba, autonomia para o Sul |
| 1983 | Leis de setembro (sharia), segunda guerra civil |
| 1989 | Golpe de Estado de Bashir e dos islamistas |
| 2003 | Guerra do Darfur; nascem os janjawid |
| 2005 | Acordo de paz com o Sul; o Darfur remetido ao TPI |
| 2009-2010 | Mandados de detenção do TPI contra Bashir |
| 2011 | O Sudão do Sul torna-se independente |
| 2013 | Nascem as RSF |
| 2019 | Queda de Bashir (11 de abril); massacre do protesto acampado (3 de junho); governo de transição |
| 2020 | O Sudão sai da lista norte-americana de apoiantes do terrorismo |
| 2021 | Golpe de Estado de Burhan e Hemedti (25 de outubro) |
| 2023 | Começa a guerra entre o exército e as RSF (15 de abril); massacres de El Geneina |
| 2024 | Veto russo no Conselho de Segurança (novembro) |
| 2025 | Genocídio segundo os EUA (janeiro); o exército retoma Cartum (março); o TIJ rejeita o caso contra os Emirados (maio); governo paralelo das RSF (julho); roteiro do Quarteto (setembro); queda de El Fasher (26 de outubro); condenação de Kushayb |
| 2026 | O governo regressa a Cartum (janeiro); a ONU encontra as marcas do genocídio em El Fasher (fevereiro); a UE proíbe o ouro sudanês (julho); ofensiva do exército no Kordofan (outubro) |
Registo de alterações
- 22 de outubro de 2026: primeira versão.
Fontes: Human Rights Watch · Library of Congress · Gabinete Central de Estatística · The National · Freedom House · EUAA · Al Jazeera · IRB Canadá · Justice Info · Minority Rights Group · Minority Rights Group · Departamento de Estado dos EUA, 2019 · Al Jazeera · The New Humanitarian · Steptoe · Embaixada do Sudão nos Países Baixos · Macquarie University · Fanack · National Army Museum · Fanack · Library of Congress · Refworld · CFR · Africanews · TPI · BBC, via allAfrica · HRW · People Daily, segundo o TPI e a ONU · Sudan War Monitor · Al Jazeera · Anadolu · Al Jazeera · V-Dem · Al Jazeera · The Sentry · CBC · Asharq Al-Awsat · The New Arab · Wikipedia · CSW · Sudan Tribune · Sudans Post · ONU Genebra · HRW · Swissaid · Horn Review · Kyiv Post · The New Arab · Al Jazeera · Justice Info · Sudan Tribune · Sudan Tribune · allAfrica · ONU · ONU Genebra, segundo o ACNUR · AP, via AJC · LSHTM · PRIO · ACNUR, com dados da OIM, maio de 2026 · Guide du droit humanitaire · TPI · The East African · Opinio Juris
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