ANÁLISE
Minab, a escola que ninguém verificou
7 de outubro de 2026 — Irão
Série «Inteligência artificial» · 2 de 6
Nota de transparência: este artigo foi preparado com a assistência do Claude, o modelo de inteligência artificial da Anthropic. Segundo o Washington Post, o Claude estava integrado no sistema militar de que se fala mais abaixo.
Em síntese
- A 28 de fevereiro de 2026, primeiro dia da guerra com o Irão, um míssil Tomahawk norte-americano destruiu a escola primária Shajareh Tayyebeh, em Minab. Segundo a Missão Internacional Independente de Apuramento dos Factos da ONU sobre o Irão, morreram mais de 150 pessoas, cerca de 120 das quais crianças.
- O edifício tinha feito parte de uma base dos Guardiões da Revolução, mas estava separado dela há anos e tinha-se tornado uma escola. A base de dados usada para escolher os alvos ainda o classificava como militar.
- O inquérito interno do Pentágono nunca foi publicado. Segundo a Bloomberg, os militares tinham confiado demasiado no sistema de inteligência artificial Maven, a equipa que devia proteger os civis tinha passado de dez pessoas para uma e nenhum especialista tinha examinado aquele local.
- A 17 de setembro, a Missão da ONU concluiu que há motivos razoáveis para considerar o ataque um crime de guerra. Washington classificou o relatório como não credível.
- Sete meses depois do ataque, tanto quanto é público, ninguém respondeu por ele. Nem o Tribunal Penal Internacional nem outros tribunais internacionais têm hoje jurisdição.
Era sábado de manhã, e no Irão o sábado é dia de escola. Pouco depois das dez, nas primeiras horas dos bombardeamentos norte-americanos e israelitas sobre o Irão, um míssil de cruzeiro atingiu a escola primária Shajareh Tayyebeh, em Minab, uma cidade da província de Hormozgan, perto do Estreito de Ormuz. No piso de cima estudavam as meninas, no piso de baixo os meninos. Muitos deles tinham entre sete e doze anos. Este artigo reconstitui como um míssil guiado com precisão foi parar a uma escola que, há anos, qualquer pessoa podia ver nas imagens de satélite, no site da instituição e nas suas redes sociais. E é a história do que acontece quando a escolha dos alvos se torna mais rápida do que o controlo.
O facto
A 28 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel atacaram o Irão (a guerra, contada aqui). Por volta das 10h45, hora local, segundo as autoridades iranianas, a escola de Minab foi atingida. O balanço varia consoante as fontes: as autoridades iranianas, citadas pela Amnistia Internacional, falam de 168 mortos, entre os quais pelo menos 110 crianças; a Human Rights Watch, de pelo menos 175. A Missão de Apuramento dos Factos da ONU sobre o Irão indica mais de 150 mortos, cerca de 120 crianças (Amnistia, 16 de março; HRW, 20 de abril; ACNUDH, 17 de setembro). Segundo uma análise publicada pela Just Security, é o balanço mais elevado de um único ataque norte-americano contra civis desde 1991 (Just Security).
Ao lado da escola havia uma base naval dos Guardiões da Revolução. As imagens de satélite mostram que até 2013 o edifício estava dentro do recinto militar; em 2016, um muro já o tinha separado, e nos anos seguintes tinham surgido os sinais de um parque infantil e as paredes pintadas (Just Security).
A 7 de março, o presidente Trump atribuiu o ataque ao Irão, dizendo que as suas munições são muito imprecisas. Um vídeo verificado pelo grupo de investigação Bellingcat e uma análise do New York Times apontaram, pelo contrário, para um Tomahawk norte-americano, um míssil que o Irão não possui (PolitiFact). Dois dias depois, Trump disse que aceitaria qualquer resultado do inquérito. A 11 de março, os primeiros resultados internos do Pentágono, relatados pela imprensa norte-americana, atribuíam o ataque aos Estados Unidos e a informações de inteligência desatualizadas. A 13 de março, o secretário da Defesa Pete Hegseth anunciou um inquérito administrativo, confiado a um general externo ao Comando Central dos EUA.
A cadeia de erros
O inquérito do Pentágono não foi publicado. Em setembro, a Bloomberg relatou as suas conclusões com base em funcionários que nele participaram: não um erro isolado, mas uma série de erros evitáveis (Bloomberg; em versão de acesso livre, Gizmodo). Os elos são quatro.
Os dados. A principal base de dados da inteligência militar ainda classificava o local como uma estrutura dos Guardiões da Revolução. Em 2019, um analista tinha notado as mudanças, mas a sua observação tinha ido parar a um sistema não ligado à base de dados usada para os alvos. Em julho, a CNN revelara que os sistemas de inteligência também tinham assinalado que as informações sobre aquele alvo eram antigas, e que o aviso tinha sido ignorado (CNN, 7 de julho).
A máquina. Os alvos da campanha passavam pelo Maven Smart System, a plataforma construída para o Pentágono pela Palantir, uma empresa norte-americana de análise de dados fundada em 2003, que trabalha sobretudo para governos, exércitos e serviços de informações. O Pentágono confiou-lhe o Maven em 2024 com um contrato de 480 milhões de dólares, que subiu em 2025 para cerca de 1,3 mil milhões; segundo o Pentágono, usam-no mais de 20 000 militares (DefenseScoop). O Maven funde imagens de satélite, dados de radar, comunicações intercetadas e outras fontes e propõe alvos. Segundo o Washington Post, o Maven funcionava com o Claude, o modelo da Anthropic. Nas primeiras 24 horas de guerra, propôs centenas de alvos, ordenou-os por importância e forneceu as suas coordenadas (Responsible Statecraft, que cita o Washington Post). Segundo o responsável pela IA do Pentágono, Cameron Stanley, nos 38 dias da campanha o Maven serviu para atingir 13 000 alvos. Stanley disse também que, nas semanas de guerra, o uso do Maven disparou, e que há sempre um ser humano a analisar a situação e a aplicar o contexto e as regras (Breaking Defense). Segundo o inquérito relatado pela Bloomberg, o pessoal do Comando Central tinha confiado demasiado no Maven: alguns esperavam que o sistema assinalasse sozinho os dados desatualizados, algo para que não tinha sido concebido. O Maven tinha reduzido o trabalho de escolha dos alvos de horas para minutos. A Palantir sustenta que não responde pela qualidade dos dados e que nada prova que o seu software tenha causado o erro. Nenhuma fonte pública diz qual parte do Maven, incluindo o Claude, terá indicado a escola: o inquérito relatado pela Bloomberg não faz essa distinção. O líder da Anthropic, Dario Amodei, disse em junho não saber exatamente como foram usados os seus modelos. Sustentou, no entanto, que o princípio da empresa foi respeitado, porque a decisão final foi tomada por uma pessoa (The Next Web, que cita a Bloomberg). A 27 de fevereiro, na véspera do ataque, o presidente Trump tinha ordenado às agências federais que deixassem de usar os produtos da Anthropic no prazo de seis meses. A empresa tinha recusado que os seus modelos fossem usados para armas completamente autónomas e para a vigilância em massa dos cidadãos norte-americanos (TechCrunch). No dia seguinte, o Claude ainda trabalhava dentro do Maven.
As pessoas. Entre 2025 e 2026, o Pentágono reduziu drasticamente as estruturas que deviam avaliar e prevenir os danos aos civis. O centro de excelência para a proteção dos civis passou de 40 para 9 pessoas; no Comando Central, a equipa encarregada desceu de dez pessoas para uma (The Intercept). Em maio, o inspetor-geral do Departamento classificou estes esforços como «em grande parte inativos». Segundo o inquérito relatado pela Bloomberg, nenhum especialista examinou o local de Minab antes do ataque.
O tempo. Segundo o Washington Post, nas primeiras 24 horas de guerra os Estados Unidos atingiram mais de mil alvos (Responsible Statecraft).
Alguns antigos oficiais defenderam que a culpa é dos seres humanos, não da inteligência artificial, porque os dados errados tinham sido introduzidos, e não atualizados, por pessoas. As duas coisas não se excluem.
Quem investiga
- O Pentágono. O inquérito administrativo anunciado a 13 de março estava quase concluído em maio, segundo o comandante do Comando Central, almirante Brad Cooper. Não foi publicado. Tanto quanto se sabe, ninguém foi sancionado.
- O Congresso. A 11 de março, mais de 40 senadores, liderados por Elizabeth Warren e Chris Van Hollen, pediram uma investigação completa. Na carta recordam que a inteligência artificial tinha sido usada para escolher os alvos (Senado dos EUA). No dia seguinte, mais de 150 congressistas pediram explicações sobre as vítimas civis. A 13 de julho, 25 senadores pediram a publicação do inquérito, entregue em abril (Senado dos EUA). No início de outubro, o inquérito ainda não é público.
- A ONU. A 17 de setembro, a Missão Internacional Independente de Apuramento dos Factos sobre o Irão, criada pelo Conselho de Direitos Humanos, concluiu que há motivos razoáveis para considerar que os Estados Unidos cometeram um crime de guerra. Segundo a Missão, a escola era o ponto de impacto previsto, e não atualizar as informações nem verificar o alvo foi além da simples negligência (ACNUDH; Time). A administração norte-americana, que em 2025 abandonou o Conselho de Direitos Humanos, classificou o relatório como não credível.
- As organizações de direitos humanos. A Amnistia Internacional e a Human Rights Watch pediram uma investigação independente, a publicação dos resultados, processos penais se houver provas e reparações para as famílias.
Leitura jurídica
1. Em caso de dúvida, uma escola é civil. O direito internacional humanitário proíbe atacar civis e bens de carácter civil (I Protocolo Adicional às Convenções de Genebra, artigos 48.º e 52.º). Em caso de dúvida, um edifício normalmente civil, como uma escola, deve presumir-se não utilizado para fins militares (artigo 52.º, n.º 3). Desde 2023, também o manual de direito da guerra do Pentágono reconhece esta presunção como direito consuetudinário (Lieber Institute). Uma escola não perde a sua proteção por ter estado, em tempos, dentro de uma base.
2. Verificar é uma obrigação, não uma cortesia. Quem ataca deve fazer tudo o que for praticamente possível para verificar que o alvo é militar (artigo 57.º). Os Estados Unidos não ratificaram o I Protocolo, mas esta regra é considerada direito consuetudinário e, por isso, vincula-os de qualquer forma; reconhece-o o próprio manual de direito da guerra do Pentágono. Em Minab, as informações para verificar existiam: as imagens de satélite, a observação de um analista em 2019, o site da escola, o aviso de que os dados estavam desatualizados. O facto de não terem chegado a quem decidia, segundo a Missão da ONU, não atenua a obrigação.
3. Erro, negligência ou crime? Aqui os especialistas não estão de acordo, e é justo dizê-lo. Para a Missão da ONU, o comportamento foi além da negligência e foi temerário: a consciência de um risco substancial basta, segundo uma parte da jurisprudência internacional, para fundamentar um crime de guerra. A Human Rights Watch segue a mesma linha. Uma análise publicada pela Just Security considera, pelo contrário, improvável uma condenação por crime de guerra ao abrigo do Estatuto de Roma, que exige a intenção. Aponta como via mais realista o código penal militar norte-americano, que pune o incumprimento dos deveres de serviço, mesmo por simples negligência (artigo 92). Num ponto, porém, as três leituras convergem: as precauções devidas não foram tomadas.
4. A responsabilidade não se transfere para a máquina. Em 2019, os Estados partes na Convenção da ONU sobre Certas Armas Convencionais, incluindo os Estados Unidos, reconheceram por consenso um princípio, não vinculativo e nascido para as armas autónomas, mas cuja lógica vale também para um sistema como o Maven: a responsabilidade humana pelas decisões sobre o uso das armas deve ser mantida, porque não pode ser transferida para as máquinas (Princípios orientadores). Perante o direito, «foi o sistema que errou» não é uma resposta: o Estado responde pelos atos das suas forças armadas, seja qual for o instrumento que tenham usado, e deve reparar o dano (Artigos da Comissão de Direito Internacional sobre a Responsabilidade dos Estados, artigos 4.º e 31.º).
5. Quem pode julgar. Nem os Estados Unidos nem o Irão são partes no Estatuto de Roma: o Irão assinou-o em 2000, mas nunca o ratificou. O Tribunal Penal Internacional só poderia intervir se o Irão aceitasse a sua jurisdição através de uma declaração específica (artigo 12.º, n.º 3, do Estatuto), que, no entanto, valeria também para os crimes cometidos por cidadãos iranianos, incluindo a repressão interna. O Conselho de Segurança poderia remeter o caso ao Tribunal, mas os Estados Unidos têm direito de veto. Restam os tribunais nacionais: os tribunais militares norte-americanos e, segundo alguns juristas iranianos, os iranianos, com base nas Convenções de Genebra ratificadas em 1957 (EJIL: Talk!).
Teste de simetria
A 8 de julho de 2024, um míssil russo atingiu o hospital pediátrico Okhmatdyt, em Kiev. A missão de monitorização da ONU concluiu que, com elevada probabilidade, se tratou de um impacto direto de um míssil de cruzeiro russo, e a condenação internacional foi imediata e quase unânime (Kyiv Independent). Neste site, no manifesto sobre a Rússia, aplicámos a Moscovo as regras sobre a proteção dos civis. Em Minab as vítimas são mais, a atribuição é admitida pelos próprios inquéritos internos de quem disparou, e a resposta oficial foi primeiro negar, depois investigar sem publicar. O critério não pode depender de quem lançou o míssil.
A mesma regra vale no sentido oposto. A Missão da ONU que acusa os Estados Unidos por Minab acusa também o governo iraniano de crimes contra a humanidade pela repressão dos protestos de 2025-2026, com assassinatos, torturas e pelo menos 29 execuções entre março e agosto. O seu mandato diz respeito ao território iraniano: não examina os ataques iranianos contra Israel e os Estados do Golfo, que considerámos ilícitos no artigo sobre a guerra. E Israel, que conduziu a guerra com os Estados Unidos, é acusado de usar há anos sistemas semelhantes. Em abril de 2024, a revista israelita +972 e o site Local Call publicaram os testemunhos de seis oficiais da inteligência sobre um sistema chamado Lavender. Segundo o seu relato, nas primeiras semanas da guerra em Gaza o sistema tinha assinalado cerca de 37 000 palestinianos como presumíveis militantes. O erro estimado era de um em cada dez, e a verificação humana durava uns vinte segundos por nome (+972 Magazine). O exército israelita negou: o Lavender, disse, é uma base de dados para cruzar fontes de inteligência, e o exército não usa sistemas que identificam quem é terrorista (Fortune). O problema não é de um só exército. As mesmas regras valem para o resto da campanha. Segundo a Amnistia Internacional, três bombardeamentos sobre bairros residenciais de Teerão, entre 1 e 13 de março, mataram pelo menos 41 civis; nem Israel nem os Estados Unidos os reivindicaram, e a Amnistia pede que se investigue se são crimes de guerra (The Defense Post).
Juízo editorial
O que se segue é a nossa avaliação, não um facto.
Minab não é a história de uma máquina que decidiu matar crianças. É a história de um sistema em que cada elo pode apontar para outro elo. Os dados eram antigos, mas alguém os tinha assinalado. A máquina não fora feita para dar por isso, mas alguém pensava que o fazia. A equipa que devia verificar tinha sido reduzida a uma pessoa, por uma escolha política. E o tempo, no primeiro dia de uma guerra com mil alvos, não existia.
A inteligência artificial não é a culpada de Minab, e não deve tornar-se o seu álibi. Fez aquilo para que foi construída: tornar mais rápida a escolha dos alvos. O problema é que a velocidade foi aumentada e o controlo foi cortado, no mesmo momento e no mesmo Departamento. As regras sobre as precauções existem porque a guerra é feita de erros: pedem que se abrande precisamente onde uma máquina permite acelerar.
Há, por fim, uma questão de confiança. Um inquérito que chega a conclusões graves e fica numa gaveta, um presidente que atribui o ataque ao inimigo contra todas as evidências, um relatório da ONU rejeitado sem ser discutido: é assim que a impunidade se constrói, passo a passo. As famílias de Minab têm o direito de saber quem tomou aquela decisão. Os Estados Unidos têm o dever de o dizer.
O que acompanhar
- A publicação do inquérito do Pentágono e as eventuais medidas disciplinares ou penais.
- As alterações ao sistema de seleção de alvos anunciadas depois de Minab e a sua aplicação efetiva.
- O relatório do centro de excelência para a proteção dos civis, cuja publicação estava prevista para o verão de 2026.
- As iniciativas do Irão sobre a jurisdição do Tribunal Penal Internacional ou nos seus próprios tribunais.
- A Conferência de Revisão da Convenção da ONU sobre Certas Armas Convencionais, em novembro, que decidirá se negocia regras vinculativas sobre as armas autónomas.
Fontes: Amnistia, 16 de março · HRW, 20 de abril · ACNUDH, 17 de setembro · Just Security · Just Security · PolitiFact · Bloomberg · Gizmodo · CNN, 7 de julho · DefenseScoop · Responsible Statecraft, que cita o Washington Post · Breaking Defense · The Next Web, que cita a Bloomberg · TechCrunch · The Intercept · Senado dos EUA · Senado dos EUA · Time · Lieber Institute · Princípios orientadores · EJIL: Talk! · Kyiv Independent · +972 Magazine · Fortune · The Defense Post
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