ANÁLISE
Trinta anos para chegar a uma guerra
27 de julho de 2026 — Rússia / Ucrânia / OTAN
O contexto
Uma guerra raramente eclode por uma única causa. A da Rússia e Ucrânia, no seu quinto ano de combates em larga escala em 2026, tem raízes que remontam a trinta anos antes do primeiro tiro — um caso útil para perceber como se constrói uma escalada, muitas vezes sem que nenhuma das partes consiga detê-la a tempo.
As raízes (1990-2008)
Em 1990, durante as negociações sobre a reunificação alemã, o secretário de Estado dos EUA James Baker disse a Gorbachev que a jurisdição da OTAN não se moveria "nem uma polegada para leste". Documentos desclassificados do National Security Archive (2017) mostram garantias semelhantes repetidas por outros líderes ocidentais nos meses seguintes. Os historiadores discordam sobre o quanto se limitavam apenas à Alemanha; concordam que **nenhuma foi alguma vez formalizada num tratado**. Em 1997 o Ato Fundador OTAN-Rússia consagra, com assinatura russa, o direito de cada Estado escolher as suas alianças. Seguem-se dois alargamentos (1999, 2004). Em 2008 a Cimeira de Bucareste declara que Ucrânia e Geórgia "se tornarão membros", sem prazo — uma ambiguidade que se revelaria mais desestabilizadora do que um sim ou um não claros.
A ingerençia nunca totalmente assumida (2014)
Em fevereiro de 2014, uma chamada entre a subsecretária de Estado Victoria Nuland e o embaixador Geoffrey Pyatt é intercetada e divulgada online — os EUA nunca contestaram a sua autenticidade. Recolhida pela BBC, a conversa mostra Nuland a discutir abertamente quem deveria liderar o futuro governo ucraniano: "Acho que o Yats é a pessoa certa [...] Klitsch e Tyahnybok devem ficar de fora." Após a fuga de Yanukovich, Yatseniuk tornou-se efetivamente primeiro-ministro. Seguiu-se a anexação russa da Crimeia e a guerra no Donbass. Os Acordos de Minsk (2014-2015) permaneceram em grande parte por aplicar devido a uma ambiguidade nunca resolvida sobre qual condição deveria ser cumprida primeiro. Uma admissão da ex-chanceler Angela Merkel em 2022 — de que os acordos também serviram para "dar tempo à Ucrânia para se fortalecer" — alimentou a desconfiança russa, embora continue a ser uma declaração política posterior, não um facto verificável de forma independente.
O salto ideológico (2021)
Em julho de 2021 Putin publica o ensaio "Sobre a unidade histórica de russos e ucranianos" — depois incluído nas leituras obrigatórias das forças armadas russas. Nele sustenta que russos e ucranianos são "um só povo" e questiona a legitimidade das fronteiras ucranianas, chamando à Ucrânia um "projeto anti-Rússia". Daí em diante o problema já não é apenas de segurança militar, mas a própria soberania nacional ucraniana — algo que nenhum acordo técnico sobre bases de mísseis poderia resolver. Dezembro de 2021 trouxe um ultimato russo formal, rejeitado pelo Ocidente.
A invasão e o erro de cálculo (2022)
A 24 de fevereiro de 2022 a Rússia invade a Ucrânia em larga escala. Os planeadores russos esperavam uma capitulação em dias. Segundo a Foreign Affairs (Charap e Radchenko, com base em entrevistas diretas a negociadores), a retirada russa de Kyiv no final de março de 2022 — apresentada por Moscovo como gesto de boa vontade — foi na realidade uma retirada forçada, depois de os russos terem "sobrestimado as próprias capacidades e subestimado a resistência ucraniana".
A janela que se fechou (Istambul, abril de 2022)
Em meados de abril de 2022, Rússia e Ucrânia chegaram a uma minuta de tratado quase completa: neutralidade ucraniana em troca de garantias de segurança dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Um negociador ucraniano declarou publicamente que "estávamos muito perto de terminar a guerra". Porque é que o acordo falhou continua a ser matéria de versões contraditórias: Moscovo atribui o naufrágio a pressões britânicas (nunca confirmadas de forma independente); a reconstrução predominante no Ocidente atribui-o a uma escolha de Kyiv, reforçada no terreno e abalada pelas revelações de Bucha, de continuar em vez de aceitar concessões dolorosas.
O efeito contrário
O ultimato de dezembro de 2021 e a invasão produziram exatamente o oposto do objetivo declarado por Moscovo: não um recuo da OTAN, mas a entrada da Finlândia (2023) e da Suécia (2024), que duplicou a fronteira direta entre a Aliança e a Rússia.
O teste de simetria
O plano jurídico e o comportamental devem manter-se separados. No plano jurídico, a invasão russa não cumpre os requisitos do Art. 51 da Carta da ONU: não houve um ataque armado ucraniano a repelir, e isto mantém-se verdadeiro independentemente do que se segue. No plano comportamental, nenhum dos três atores principais sai limpo: a ingerençia dos EUA em 2014, a ambiguidade de Minsk imputável a várias partes, a escolha ucraniana de continuar a guerra após Istambul. Nada disto reequilibra o plano jurídico.
Juízo editorial
O caso Rússia-Ucrânia mostra um padrão que se repetirá, com variações, noutros conflitos: dilema de segurança, uma narrativa que nega a legitimidade do outro, diplomacia deixada deliberadamente ambígua, erro de cálculo, e pelo menos uma janela diplomática real deixada cair. Compreender este mecanismo não serve para distribuir culpas por igual — a violação do direito internacional continua a ser um facto distinto — mas para perceber porque é que as guerras, uma vez desencadeadas, são tão difíceis de encerrar.
Fonti: BBC, transcrição da chamada Nuland-Pyatt (7 de fevereiro de 2014) · Christian Science Monitor (6 de fevereiro de 2014) · National Security Archive, Universidade George Washington — "NATO Expansion: What Gorbachev Heard" (2017) · Atlantic Council / OSW Centre for Eastern Studies — ensaio de Putin (julho de 2021) · Foreign Affairs, Charap & Radchenko — "The Talks That Could Have Ended the War in Ukraine" · European Council on Foreign Relations — "Ukraine, Russia, and the Minsk agreements: A post-mortem"