ANÁLISE

Treze anos para derrubar um homem que o Ocidente já tinha desistido de derrubar

27 de julho de 2026 — Síria

O contexto

Poucas guerras mostram tão claramente o quanto um conflito pode arrastar-se por pura inércia, mesmo depois de todos os seus principais patrocinadores externos terem deixado de acreditar nele. A Síria entre 2011 e 2024 é o caso de manual.

Da revolta à guerra por procuração (2011-2015)

Os protestos da Primavera Árabe de 2011 contra Bashar al-Assad transformaram-se em guerra civil após a repressão violenta do governo. A partir de 2013 o conflito internacionaliza-se rapidamente: a CIA lança o programa secreto Timber Sycamore para armar os rebeldes "moderados" — já tratado em detalhe, incluindo o fracasso da triagem de armas e as ligações documentadas de alguns grupos financiados a redes jihadistas, em Os EUA armaram a rebelião síria durante cinco anos. Em 2015 a Rússia intervém diretamente ao lado de Assad com a sua força aérea, enquanto o Irão e o Hezbollah prestam apoio terrestre — transformando a Síria no principal palco de guerra por procuração da década.

O impasse e o abandono silencioso (2017-2024)

Em 2017 a administração Trump encerra o Timber Sycamore, naquilo que um funcionário norte-americano descreveu ao Washington Post como um sinal explícito a Moscovo — "Putin venceu na Síria" — dias antes do primeiro encontro Trump-Putin no G20. Daí em diante o conflito entra num impasse de sete anos: Assad reconquista território com apoio russo-iraniano, mas sem normalização política, enquanto os EUA e a Europa deixam de investir ativamente numa mudança de regime, limitando-se a sanções.

A queda súbita (novembro-dezembro de 2024)

A 27 de novembro de 2024, o Hay’at Tahrir al-Sham (HTS), liderado por Ahmed al-Sharaa, lança uma ofensiva surpresa na província de Alepo — um dia depois da entrada em vigor de um cessar-fogo Israel-Hezbollah no Líbano, que tinha reduzido o apoio militar iraniano/do Hezbollah disponível para Assad. Alepo, a segunda cidade síria, cai a 1 de dezembro; Hama a 5 de dezembro; Homs, a terceira cidade, a 7 de dezembro. A 28 de novembro, Assad voa pessoalmente para Moscovo para pedir ajuda militar russa — o pedido é recusado. Regressa à Síria mentindo aos seus próprios comandantes sobre a chegada dessa ajuda. A 8 de dezembro de 2024 os rebeldes entram em Damasco com resistência mínima, as forças governamentais abandonam as suas posições; Assad foge para a Rússia, onde obtém asilo. Fim de treze anos de guerra civil e cinquenta anos de dominío da família Assad.

O pós-guerra, ainda instável (2025-2026)

Al-Sharaa torna-se presidente interino (janeiro de 2025); um governo de transição é constituído em março de 2025. A Síria pós-Assad de 2026 não é um caso encerrado: 15,6 milhões de sírios em 23 milhões precisam de assistência humanitária, e a pressão da Turquia e da Alemanha para o regresso de refugiados continua apesar de o ACNUR excluir formalmente a possibilidade de um regresso seguro — dinâmica já tratada em detalhe em A ONU diz que não é possível voltar à Síria em segurança.

Teste de simetria e mecanismo de escalada

O caso sírio segue o mesmo padrão dos outros casos desta série, com uma variante significativa: aqui não é um erro de cálculo militar que produz o ponto de viragem, mas o esgotamento simultâneo dos recursos de várias potências externas noutras frentes — Rússia presa à Ucrânia, Irão e Hezbollah enfraquecidos pelo confronto com Israel — que cria a janela para o colapso súbito. É um lembrete útil para os outros casos desta série: um conflito congelado não é um conflito resolvido, e pode reabrir não por uma nova agressão, mas simplesmente porque a atenção se deslocou para outro lugar.

Juízo editorial

A recusa russa em ajudar Assad — um aliado em quem Moscovo tinha investido anos de intervenção militar direta — é talvez o facto mais eloquente deste caso: mostra que nenhum apoio externo, por mais prolongado que seja, está garantido assim que os custos noutros locais superam o valor estratégico de continuar a sustentá-lo.

Fonti: CNN — "The Assad regime ruled Syria for 50 years. Here's how it fell in less than two weeks" (dezembro de 2024) · EUAA (Agência da UE para o Asilo) — "Country Focus: Syria" (março de 2025) · The Media Line — "The 12-Day Revolution: How Syria's Regime Collapsed After Years of War" · Gulf News — "Syria rebels' lightning offensive: 11 days to the fall of Damascus"

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