ATUALIDADE
Iémen: a guerra intensifica-se novamente e relança o recrutamento de menores, enquanto a ONU alerta para o risco de fome
Setembro de 2026
Os factos
Desde a semana passada, mais de 100 combatentes de ambos os lados foram mortos em confrontos entre as forças huthis e as forças governamentais/pró-sauditas ao longo das frentes de Taiz ocidental e Hodeidah meridional (frente de Kadha) — a escalada mais intensa em anos nessa mesma linha de frente, já noticiada neste site em julho de 2026. No mesmo período, Hazazi documentou 62 novos casos de recrutamento infantil no segundo trimestre de 2026 em províncias sob controlo huthi, classificando-os como «apenas uma fração» do fenómeno real, uma vez que a maioria dos casos não é denunciada. A SAM Organization for Rights and Liberties, que monitoriza as violações de direitos humanos no país, registou 11.310 crianças recrutadas ou utilizadas em 19 governorados entre 2014 e 2023, das quais 6.269 com idades entre os 8 e os 11 anos.
Casos individuais recolhidos pela Al Jazeera mostram uma compensação financeira explícita pelo alistamento: cerca de 50.000 riais iemenitas (210 dólares) de uma só vez, ou um salário mensal de cerca de 45.000 riais (80 dólares) — ligeiramente acima do salário médio local, num país onde mais de quatro em cada cinco crianças rurais vivem na pobreza. As forças pró-governamentais capturaram numerosas crianças-soldado huthis, inclusive na frente de al-Dhale; as fontes consultadas para este ciclo não mostram casos comparáveis de recrutamento do lado governamental (ver teste de simetria abaixo).
No pano de fundo, o chefe dos assuntos humanitários da ONU, Tom Fletcher, informou ao Conselho de Segurança, em meados de agosto de 2026, que 6 milhões de pessoas enfrentam níveis de privação de «emergência», à beira da fome. Um relatório conjunto da ACAPS/FAO/UNICEF/Banco Mundial/PAM/OMS do início de 2026 coloca o Iémen no quarto lugar mundial em insegurança alimentar, com 18,3 milhões de pessoas projetadas em Crise (Fase 3 do IPC) ou pior. O Plano de Resposta Humanitária da ONU (HNRP) 2026, publicado pela OCHA a 18 de março de 2026, estima em 22,3 milhões as pessoas que necessitam de assistência e proteção no país, incluindo 5,2 milhões de deslocados internos. O Iémen consta ainda da Lista de Vigilância de Emergências 2026 do International Rescue Committee, publicada em dezembro de 2025 — ou seja, antes de qualquer notícia desta semana.
A 20 de julho de 2026, os huthis declararam um bloqueio naval contra a Arábia Saudita, apresentando-o como uma resposta de «olho por olho» ao que descrevem como um cerco saudita terrestre, marítimo e aéreo há cerca de 12 anos — declaração que surgiu após um ataque saudita ao aeroporto de Sanaa, em meio a uma reativação das tensões regionais em torno do papel do Irão. A Arábia Saudita rejeitou a acusação de cerco no dia seguinte, afirmando ter permitido a passagem de mais de 300 navios carregados de alimentos, mercadorias, combustível e materiais de construção para os portos de Hodeidah, Salif e Ras Isa no primeiro semestre de 2026, e anunciou medidas de proteção do tráfego marítimo no estreito de Bab al-Mandab. Nenhuma das partes forneceu, até à data, verificação independente sobre a aplicação efetiva do bloqueio declarado pelos huthis.
Comentário jurídico
O recrutamento e a utilização em combate de menores de 15 anos constitui um crime de guerra nos termos do Estatuto de Roma, art. 8(2)(b)(xxvi) e (e)(vii); o Protocolo Facultativo à Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança, da qual o Iémen é Estado-parte, estende a proibição de recrutamento até aos 18 anos. Note-se que parte dos casos documentados envolve jovens de dezassete anos: uma faixa etária em que o direito internacional proíbe igualmente a utilização em combate, mas não sob o mesmo limiar absoluto previsto para os menores de 15 anos — uma distinção jurídica que não deve ser diluída. Tanto o governo iemenita (com um plano de ação da ONU assinado em 2014) como os huthis (com um acordo semelhante de 2022) tinham-se comprometido a pôr fim a esta prática; as provas reunidas neste ciclo mostram que o compromisso huthi permanece, em grande parte, por cumprir.
Implicações — o teste de simetria
O princípio — nenhum recrutamento de menores, por qualquer ator — aplicar-se-ia igualmente às forças huthis e às forças governamentais ou pró-sauditas: não é um juízo reservado a um só lado. Mas aplicá-lo honestamente aqui significa também dizer o que as fontes deste ciclo não mostram: ao contrário do caso já tratado neste site em julho (em que a coligação saudita, os Emirados Árabes Unidos e os EUA/Reino Unido partilhavam responsabilidades comparáveis e documentadas), as fontes disponíveis sobre o recrutamento infantil de 2026 concentram-se quase inteiramente do lado huthi — as forças pró-governamentais parecem capturar menores recrutados pelos huthis, sem os recrutarem elas próprias neste ciclo. Um precedente já conhecido (recrutamento também pelo exército iemenita durante a revolta de 2011 contra Saleh) mostra que o fenómeno nunca foi exclusivo de um único ator no passado — mas aplicá-lo ao presente sem uma fonte comparável para 2026 seria uma simetria construída, não encontrada. Declara-se, por isso, a assimetria em vez de a colmatar. Quanto ao acesso humanitário, o quadro permanece duplo, como no caso de julho já publicado neste site: os huthis acusam a Arábia Saudita de um cerco de anos, Riade nega e reivindica a passagem de centenas de navios por portos huthis no mesmo período — nenhuma das duas versões foi verificada de forma independente, e ambas devem ser reportadas como declarações contraditórias, não como facto estabelecido a favor de uma ou outra.
Apreciação
Declarado como tal, separado dos factos acima: a pobreza não justifica o recrutamento infantil — continua a ser um crime, independentemente de quem o comete e das condições económicas de quem nele consente —, mas explica por que essa «escolha» continua a apresentar-se como tal. Uma compensação de 80 dólares por mês, num país onde quatro em cada cinco crianças rurais vivem na pobreza, não é um incentivo neutro: é a diferença entre uma refeição e nenhuma refeição para uma família. A pobreza não ajuda as famílias a escolher de outra forma quando a alternativa imediata é a fome — não absolve quem recruta, mas restringe o espaço real de escolha de quem consente.
Notícia relacionada: Iémen: 73 funcionários da ONU continuam detidos arbitrariamente pelos huthis, enquanto Hodeidah volta a sangrar — mesma área de conflito (Hodeidah); a ofensiva do início de setembro aqui tratada é a continuação da escalada já noticiada em julho.
Fontes: Al Jazeera — recrutamento infantil e ofensiva Taiz/Hodeidah · Al Jazeera — declarações de Tom Fletcher ao Conselho de Segurança · OCHA/ReliefWeb — Plano de Resposta Humanitária Iémen 2026 (18/3/2026) · SAM Organization for Rights and Liberties · International Crisis Group — Ahmed Nagi, analista sénior para o Iémen · IRC — Lista de Vigilância de Emergências 2026 · ACAPS/FAO/UNICEF/Banco Mundial/PAM/OMS — Relatório conjunto de monitorização Iémen · CFR Global Conflict Tracker · Al-Ahram (AP) — declaração do bloqueio naval huthi, 20/7/2026 · Arab News — resposta saudita, 21/7/2026
Nota de verificação: o bloqueio naval é apresentado como declarações contrapostas (anunciado pelos houthis a 20/7/2026, rejeitado por Riade a 21/7/2026); não existe verificação independente da sua aplicação efetiva. Para o número de pessoas que precisam de assistência usamos o dado mais recente do OCHA (22,3 milhões, março de 2026), que substitui os 21,6 milhões citados no texto de julho.