NOTÍCIA
Drones turcos e chineses para Haftar: a Líbia continua a ser palco de violações do embargo da ONU, agora dos dois lados da frente
2 de abril de 2026 — Líbia
O contexto
Há quinze anos a Líbia vive sob um embargo de armas decidido pelas Nações Unidas. Deveria ser o instrumento com que a comunidade internacional tirava combustível a uma guerra civil que, entretanto, se cristalizou em dois polos opostos — um governo em Trípoli, e um homem forte, o general Khalifa Haftar, que controla o leste do país. As imagens de satélite publicadas no início de abril de 2026 pela Reuters contam, porém, uma história mais incómoda: esse embargo continua a ser contornado hoje, e não por um só lado.
Os factos
As fotos, tiradas entre finais de abril e dezembro de 2025 pela empresa Planet Labs e analisadas por três especialistas independentes, mostram drones de combate estacionados na base aérea de Al Khadim, cerca de cem quilómetros a leste de Bengasi — mesmo em território de Haftar. Os especialistas identificam com razoável segurança um drone chinês, o Feilong-1, produzido pela empresa de Xi'an Zhongtian Feilong, e pelo menos dois drones turcos Bayraktar TB2, os da Baykar (Istambul) que se tornaram conhecidos nas guerras da Ucrânia e do Alto Carabaque. No mesmo período, a base parece ter sido ampliada com novos hangares, aparentemente construídos para os acolher.
Porque é que isto importa: o embargo que estes drones estariam a violar não é um entendimento informal, mas uma decisão vinculativa do Conselho de Segurança da ONU — a resolução 1970, aprovada por unanimidade a 26 de fevereiro de 2011 ao abrigo do Capítulo VII da Carta, o reservado a ameaças à paz. Desde então, um painel de peritos independentes, criado pouco depois pela resolução 1973, tem a tarefa de verificar o seu cumprimento: a descoberta de Al Khadim consta de um rascunho do seu relatório de 2025, visto pela Reuters. Questionados pelos jornalistas, nem Pequim nem Ancara responderam; a China já tinha negado junto do painel da ONU que componentes semelhantes fossem material militar, alegando tratar-se de um modelo desativado, destinado a socorro e emergências.
Porque conta aqui o teste de simetria
O que torna este caso interessante para quem acompanha este site não é tanto a violação em si — as violações do embargo líbio estão documentadas há anos — mas de que lado aparecem estes drones. A Turquia é conhecida como o principal patrocinador militar do governo de Trípoli, rival histórico de Haftar: encontrar drones turcos também na base do seu rival complica qualquer leitura limpa de blocos opostos, e mostra que contornar o embargo não é especialidade de um só lado. Do lado de Haftar continuam documentados, em separado, também os apoios da Rússia e dos Emirados Árabes Unidos, não tratados aqui para não misturar episódios distintos sob uma única acusação.
A posição dos acusados
O governo chinês já declarou, noutro contexto, não considerar fundamentada a acusação sobre a natureza militar do material em causa. O governo turco e os dois fabricantes, Baykar e Zhongtian Feilong, pelo contrário, não responderam de todo aos pedidos de esclarecimento — um silêncio a assinalar como tal, sem o tratar como uma admissão.
Comentário jurídico — juízo declarado como tal
Quinze anos de embargo, um painel da ONU dedicado a fazê-lo cumprir, e ainda hoje drones que chegam dos dois lados da frente: é difícil não ver nisto o sinal de um instrumento que, na prática líbia, acabou por pesar mais como declaração de princípios do que como dissuasão real.
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Fontes: Reuters · Resolução da ONU 1970 (2011) · Comité de Sanções da ONU sobre a Líbia