NOTÍCIA

Irão: o governo admite "milhares" de mortos nos protestos, depois executa os sobreviventes

15 de julho de 2026 — Irão

«Estamos envergonhados perante o povo e temos a obrigação de ajudar todos os que foram prejudicados nestes acontecimentos.» — Masoud Pezeshkian, presidente iraniano, 11 de fevereiro de 2026

Os factos

O próprio regime iraniano admite o massacre — a discrepância nos números é, em si, a notícia. O governo de Teerão fixou o balanço oficial dos protestos de 8-9 de janeiro de 2026 em 3.117 mortos (2.447 "civis e forças de segurança", o resto rotulado de "terroristas"), publicando a 1 de fevereiro uma lista de 2.986 nomes elaborada pela Organização de Medicina Legal iraniana por ordem do próprio Pezeshkian — comunicado também divulgado pela agência estatal chinesa Xinhua, que reproduz a nota oficial da presidência. No mesmo dia, o líder supremo Ali Khamenei reconheceu publicamente "milhares de mortos", atribuindo a culpa a Trump e a "estrangeiros ligados aos Estados Unidos e a Israel". O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmail Baghaei, confirmou a 12 de janeiro que as forças de segurança tinham disparado diretamente contra os manifestantes.

Fontes independentes colocam o balanço muito mais alto: a Human Rights Activists in Iran (HRANA) documentou 7.007 mortes pelo nome; a Iran International verificou 6.634, das quais menos de 100 coincidem com a lista governamental; um relator especial da ONU estimou que o total poderia ultrapassar os 20.000. Um memorando interno da agência Tasnim — ligada aos Guardas Revolucionários — que vazou e foi publicado pela Iran International, instrui explicitamente os meios de comunicação do regime a apresentar os protestos como uma conspiração estrangeira em vez de raiva popular genuína, e a deslegitimar o opositor exilado Reza Pahlavi como "instrumento mediático ocidental". Desde 11 de janeiro, as autoridades impuseram um apagão de internet de 88 dias (até 26 de maio), o mais longo alguma vez registado no país, isolando mais de 90 milhões de pessoas.

Após o fim da guerra com os EUA e Israel (acordo de 12-13 de junho de 2026, cuja ilegitimidade no uso da força este site já abordou num texto relacionado), a repressão não parou: deslocou-se para os tribunais. Desde finais de fevereiro, as autoridades detiveram arbitrariamente mais de 6.000 pessoas; só em junho de 2026 foram executadas pelo menos 141 sentenças de morte, a maioria nunca anunciadas oficialmente — cerca de uma a cada dois dias entre março e abril, segundo o Center for Human Rights in Iran, na sequência de julgamentos sumários, confissões extraídas sob tortura e execuções secretas sem aviso prévio às famílias. Entre as vítimas: manifestantes de janeiro, minorias curdas e baluches, e — segundo a Human Rights Watch — a perseguição sistemática da minoria bahá'í, que a organização qualifica como crime contra a humanidade.

Comentário jurídico

As matanças em massa durante os protestos violam o direito à vida consagrado no artigo 3.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos e no artigo 6.º do Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos. As execuções sumárias subsequentes, baseadas em confissões extraídas sob tortura e julgamentos desprovidos de qualquer garantia, violam simultaneamente a proibição da tortura consagrada na Convenção da ONU contra a Tortura (CAT) e o direito a um julgamento justo (art. 14.º PIDCP). O uso sistemático da pena capital contra manifestantes e minorias étnicas configura a pena de morte não como sanção penal mas como instrumento de repressão política — uma distinção juridicamente relevante para a sua qualificação como perseguição nos termos do Estatuto de Roma.

Implicações — teste de simetria

Este site já condenou, no texto relacionado, a ilegitimidade do ataque EUA-Israel de 28 de fevereiro como uma guerra de agressão em violação do artigo 2.º(4) da Carta da ONU. Essa condenação mantém-se válida e não se anula aqui. Mas no mesmo período, a Human Rights Watch documenta que as forças israelitas atingiram a prisão de Evin em Teerão a 23 de junho de 2026 sem qualquer alvo militar evidente, matando e ferindo civis naquilo que qualifica como um possível crime de guerra. As duas condenações coexistem sem se anularem mutuamente: a agressão sofrida pelo Irão não absolve o regime da sua própria máquina de execuções contra os seus próprios cidadãos; a repressão interna do regime não absolve Israel do seu possível crime de guerra contra uma prisão. Aplicar o teste apenas a um dos dois atores, em qualquer sentido, não o superaria.

Fontes: Xinhua (comunicado oficial da presidência iraniana) · Al Jazeera · Iran International · RFE/RL · Human Rights Watch · Center for Human Rights in Iran · Iran Human Rights Monitor

IrãoONUDireito internacional

← Todas as notícias e manifestos

Mantenha-se informado

Uma síntese essencial, só quando um facto o merece. Sem spam, sem algoritmo: o seu email continua seu.

Ao subscrever aceita receber atualizações de I Will Not Look Away. Cancele quando quiser.